14-6-2006

 

D. Miguel da Silva, o "Cardeal Viseu"

(1480 - 1556)

 

  

D. Miguel da Silva nasceu em Évora em 1480, filho de D. Diogo da Silva e Menezes, aio de D. Manuel I, 1.º Conde de Portalegre e de D. Maria de Aiala.  O seu irmão mais velho, João da Silva, casou com D. Maria de Menezes e do casamento nasceram os dois sobrinhos, Jorge da Silva e António da Silva.

Revelando inteligência fora do comum, D. Manuel mandou-o para a Universidade de Paris, onde estudou com aproveitamento latim e grego. De Paris partiu para Itália, onde esteve em Sena, Bolonha e Roma. Foi depois a Veneza, antes de regressar a Portugal.

Em Agosto de 1514, D. Manuel nomeia-o embaixador junto do Papa Leão X, encarregando-o ainda de representar o Reino no Concílio de Latrão (1512-1517).

Em 27 de Fevereiro de 1515 é encarregado pelo Rei de pedir ao Papa o estabelecimento em Portugal o estabelecimento da Inquisição, a exemplo da de Espanha.

 
Em casa de Marta, de Gaspar Vaz Museu Grão Vasco, Viseu). Esta pintura é muitas vezes atribuída a Vasco Fernandes, o Grão Vasco, mas os técnicos consideram hoje que é do seu discípulo, Gastão Vaz. Segundo a tradição, D. Miguel da Silva seria o primeiro à direita de Jesus.

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Em 1516, foi encarregado do bispado da Guarda durante a menoridade do titular, o príncipe D. Afonso, filho de D. Manuel. Ficou em Roma durante o pontificado de Leão X, de Adriano VI e ainda parte do de Clemente VII.

Leão X, ofereceu-lhe a púrpura cardinalícia, tal o prestígio de que gozava. Recusou. Também Clemente VII lhe fez a mesma oferta.. D. João III (que tinha subido ao trono em 1521) soube disso e mandou que D. Miguel da Silva regressasse a Portugal, substituindo-o por D. Martinho de Portugal. Provavelmente não queria que outra pessoa fosse nomeada Cardeal ainda antes de seu irmão, D. Henrique. D. Miguel da Silva obedeceu e partiu de Roma no início de Agosto de 1525. O Papa escreveu ao Rei um breve a D. João III, recomendando-lhe o seu embaixador, que voltava ao Reino.

D. Miguel foi nomeado pelo Rei Escrivão da Puridade, mas teve muita dificuldade em tomar posse do cargo, pela oposição da pessoa que então o exercia, D. António de Noronha, por sinal, seu cunhado. Foi eleito Bispo de Viseu no final de 1525 ou princípio de 1526, mas demorou bastante a tomar posse do cargo, o que só aconteceu em 1528 ou 1529.

Em 1528, aconteceu um facto que deu enorme prestígio para sempre a D. Miguel da Silva: o seu amigo Baldassarre Castiglione, Núncio Pontifício junto de Carlos V, dedicou-lhe a sua obra Il libro del Cortegiano, impresso em Veneza por Aldo Manunzio (ver aqui)

Alguém que também o admirava foi Paolo Giovio (em latim, Paulus Jovius), um humanista brilhante e divertido, que muito escreveu, nomeadamente uma lista com retratos dos literatos ilustres do seu tempo, dada à estampa em 1542. O poeta novilatino Diogo Pires escreveu-lhe em latim uma carta aberta em Fevereiro de 1547, protestando por ele não ter incluído nem um português naquele seu livro. Possivelmente, para corrigir a omissão, Giovio incluiu nas edições posteriores a 1547 uma referência ao seu amigo D. Miguel da Silva (mas sem lhe pôr o retrato), no final, a págs. 226 da edição reproduzida online e referida abaixo:

 

Ea porro ingenia, quæ ultima terrarum Lusitania ad Oceanum nobis abscondit, a Michaele Sylvio Cardinale non Diu quidem expectabimus. Is enim a varia doctrina poeta cultissimus, ac omnis elegantiæ iucundus arbiter, studia nostra vehementer amat et laudat, patrii decoris plane cupidus, supra reliquos animosæ gentis honores, hoc literatæ laudis nomen, Tanquam non postremæ, si non summæ gloriæ minime contemnit.

Entretanto, não esperámos muito pelos talentos do Cardeal Miguel da Silva, que a Lusitânia, a última das terras junto do Oceano, nos escondia. Ele é certamente um poeta cultíssimo em diversas doutrinas, e um simpático árbitro de toda a elegância, que ama e aprecia com veemência os nossos estudos. Inteiramente dedicado ao prestígio da pátria, este nome digno de louvor no campo das letras, fez muito pouco caso, quer da suprema,  quer mesmo de maior glória, acima das restantes honras da gente intrépida.

 

D. Miguel da Silva marcou pontos da administração da Diocese de Viseu. Construiu o claustro da Sé que ainda hoje existe, e mandou fazer o coro alto. Empenhou-se também muito na renovação da quinta do Fontelo, que pertencia ao Bispado desde séculos atrás.

A mata do Fontelo (como hoje se diz) esteve depois abandonada desde 1540 até 1553, quando o recém-nomeado bispo da diocese, D. Gonçalo Pinheiro se ocupou da sua manutenção e renovação. Neste último ano, escreve o sobrinho do bispo, António de Cabedo (1531?-1556?) o seu poema Fontellum onde exaltadamente descreve as maravilhas da quinta, possivelmente mais imaginadas do que correspondentes à realidade, dado o abandono a que tinha sido votada.

Em 1538 é convocado o Concílio de Trento e D. Miguel pede ao Rei permissão para ir a Roma. D. João III nega-lhe a autorização e aconselha-o a fingir-se doente. O conflito com o Rei agravou-se de tal modo, que em 22 de Julho de 1540, D. Miguel foge para Itália. Entretanto, o Papa Paulo III (Alessandro Farnese, seu amigo pessoal, eleito em 1534), tinha-o feito cardeal no consistório secreto de 12 de Dezembro de 1539, conservando-o in petto até 2 de Dezembro de 1541.

Desde então, até à sua morte foi uma luta permanente de gato e rato com D. João III.

Não tendo podido evitar a sua nomeação como Cardeal, o Rei publicou em 23 de Janeiro de 1542 uma carta régia em que desnaturalizava D. Miguel e o destituía de todos os seus bens e prerrogativas em Portugal. Sabendo que o sobrinho, D. Jorge da Silva, se ocupava de negócios do tio mandou-o encarcerar e depois exilar. D. Miguel respondeu com uma longa carta, que foi traduzida do italiano por Mons. José de Castro (Portugal no Concílio de Trento, 1.º vol., págs. 360-381).

Os últimos anos de D. Miguel da Silva devem ter sido muito penosos, sem meios para ostentar o esplendor de outrora e achacado pela doença e as dificuldades. Veio a falecer em 5 de Junho de 1556.

Torna-se difícil explicar o ódio de D. João III contra D. Miguel da Silva, tanto mais que não surgiram grandes dificuldades para nomear Cardeal o Infante D. Henrique. Mas ele teria tido um fim bem mais triste se tivesse ficado em Portugal. Possivelmente, teria ido parar aos cárceres da Inquisição já que o Rei também o acusava de pederastia, o pecado nefando, como se dizia na época. Aliás, nas “pasquinate” em Roma, que se referiam ao Cardeal Viseu, foi muitas vezes utilizada a palavra “culiseo” (em dialecto romanesco, com minúscula), palavra que tem um significado bem longe de inocente, ao contrário do que diz Mons. José de Castro.

Da sua obra literária, destacam-se o poema De Aqua Argentea, dedicado ao Aqueduto de Évora, que ainda não obteve uma tradução portuguesa (Sylvie Deswarte publicou uma tradução para francês) e um epigrama que foi gravado em mármore no Capitólio (transcrito na Bibliotheca Lusitana e em Lilio Gregório Giraldi (com menos 2 versos)– ver aqui ou aqui):

 

 

 

Michael Silvius Card. ad urbem Romam

 

Marmora praeclaros testantia fronte triumphos

Atque magistratus inclyta Roma tuos,

In medio mansere foro dum Roma manebas

Postque deos orbi iura secunda dabas.

Ast ubi te indignis fregit Fortuna ruinis

Obruerat titulos alta ruina tuos;

Tamque div in tenebris tantis jacuisse videntur

His velvti fato debita temporibus

Quae modo Alexander patria te dignus avoque

Paulo, inventa tibi marmora restituit

Tu Capitolina meliore in sede reponis

Et legeris magni munere Pharnesii.

 

 

 

O Cardeal Miguel da Silva à cidade de Roma

 

 

 

Os mármores que nas suas fachadas, ó ínclita Roma, dão testemunho dos teus preclaros triunfos, assim como os teus magistrados ficaram no meio do Foro, enquanto tu Roma estavas de pé e impunhas ao mundo leis apenas inferiores às dos deuses. Mas, desde que a Fortuna te despedaçou com indignas ruínas, uma outra ruína enterrou os teus pergaminhos. E estes mármores, por tanto tempo sepultados em tais trevas, devidas quase fatalmente aos nossos tempos, agora Alexandre, mui digno de te ter a ti como Pátria e a Paulo como antepassado, os redescobriu, e te restituiu e tu os colocas de novo na mais digna sede Capitolina, a fim de que seja assim conhecida graças à munificência do grande Farnese.

 

 

(Adaptação da tradução italiana no livro de Sylvie Deswarte)

 

 

 

 LINKS

 

Manoel Severim de Faria, Notícias de Portugal, Lisboa Occidental, na Officina de Antonio Isidoro da Fonseca, 1740, págs. 264-267

online na Biblioteca Nacional: http://purl.pt/698/1/

 

Aires Pereira do Couto, O grande senhor do Fontelo do século XVI: D. Miguel da Silva, Beira Alta, vol. XLIX, fasc. 3 e 4, 1990

http://visoeu.blogspot.com/2005_11_01_visoeu_archive.html

 

José de Castro, D. Miguel da Silva, o “Cardeal de Viseu”

http://visoeu.blogspot.com/2005/04/dom-miguel-da-silva-o-cardeal-de-viseu.html

http://visoeu.blogspot.com/2005/04/dom-miguel-da-silva-o-cardeal-de-viseu_22.html

 

Américo Costa Ramalho, A Reabilitação de D. Miguel da Silva, in Boletim de Estudos Clássicos, volume 36, Dezembro de 2001, págs. 135/6

http://www.uc.pt/eclassicos/bd_pdfs/36/14-AReabilitacaodeDMigueldaSilva.pdf

 

Paulus Jovius, Pauli Iouii ... Elogia virorum literis illustrium, quotquot vel nostra vel auorum memoriam vixere / Ex eiusdem Musaeo ... ad viuum expressis imaginibus exornata Petri Pernae typographi, sumptibus ... Henrico Petri, 1577 Basileia

http://bibliothek.uv.es/search*spi/agiovio/agiovio/1,1,5,B/l962&FF=agiovio+paolo&5,,5,0,-1

 

An Italian Portrait Gallery, by Paolo Giovio, of New Como, Bishop of Nocera, an English translation by Florence Alden Gragg (1877-1965)

http://www.elfinspell.com/Paolocontents4.html

 

André de Resende (O.P.) (1498-1573), Libri Quator De Antiquitatibus Lusitaniae  a Lucio Andrea Resendio olim inchoati, & à Iacobo Menoetio Vasconcello recogniti, atq[ue] absoluti ; Accessit liber quintus de antiquitate municipij Eborensis, ab eodem Vasconcellos conscriptus ... Eborae : Excudebat Martinus Burgensis ..., 1593 (Ver págs. 319 do software)

http://bibliothek.uv.es/search*spi/aresende/aresende/1,1,1,B/l962&FF=aresende&1,0,,0,-1

 

Il libro del cortegiano del conte Baldesar Castiglione, in Vinegia, per Vettor de Rabani e compagni, 1538

http://bibliothek.uv.es/search*spi/acastiglione/acastiglione/1,7,8,B/l962&FF=acastiglione+baldassarre+conte+1478+1529&1,,2,0,-1

 

Baldassarre Castiglione, Il libro del cortegiano (texto integral com grafia actualizada)

http://www.filosofico.net/illibrodelcortegiano.htm

 

Biografia de Salvador Miranda

http://www.fiu.edu/~mirandas/bios1539.htm

 

TEXTOS CONSULTADOS

Sylvie Deswarte, Il 'Perfetto Cortegiano' D. Miguel da Silva, Roma: Bulzoni, 1989.ISBN 88-7119-027-0

 

Sylvie Deswarte, "La Rome de D. Miguel da Silva (1515-1525)", in O Humanismo Português 1500-1600, Primeiro Simpósio Nacional (Lisboa, 1985), Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1988, 177-307.

 

Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, nova edição prep. e dir. por Damião Peres, 1967-1971, Portucalense Editora, Porto

 

Diogo Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, 1760.

 

António de Portugal e Faria, Portugal e Itália: ensaio de diccionario bibliographico, Leorne: Typographia de Raphael Giusti, 1898-1926

Manuscritos transcritos:

Roma Lusitana, ovvero Memorie Raccolte da Fancesco Cancellieri, 1817

Frei Fortunato de S. Boaventura (1778-1884), Literatos Portugueses na Itália ou Colecção de subsídios para se escrever a História Literária de Portugal, que dispunha e ordenava Frei Fortunato Monge Cisterciente

 

Américo da Costa Ramalho, Recensão de «SYLVIE DESWARTE, Il 'Perfetto Cortegiano’ D. Miguel da Silva», Humanitas. Coimbra. 41-42 (1989-1990) 259-260

 

Aires Pereira do Couto, O poema Fontellum de António de Cabedo, in Humanitas, vol. XLIV (1994), págs. 333-349

 

Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, 3 vols. Livraria Bertrand, Lisboa, 1975.

 

José de Castro (1886-1966), Portugal no Concílio de Trento, 1944-1946, 6 vols. Tip. União Gráfica

 

Francisco Alexandre Lobo (1763-1844) , Obras, Typ. Jose Baptista Morando, 1848-1853, Lisboa, 1.º volume, pag. 260-281

Online: http://books.google.pt