19-12-2001
VITORINO NEMÉSIO
1901 - 1978
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Nemésio (1901-2001): um ilhéu do mundo
DN, 16-12-2001
CRONOLOGIA:
1901
- A 19 de Dezembro, nasce Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, na Praia da
Vitória, Ilha Terceira, Açores.
1912
- Inicia os estudos secundários no liceu de Angra.
1916
- Colabora no Eco Académico. Semanário dos Alunos
do Liceu de Angra, desde o n.º 2 (13 de Fevereiro). Funda e dirige
Estrela d'Alva. Revista Literária Ilustrada e Noticiosa, também em Angra do
Heroísmo.
1918
- Conclui na Horta (Faial) o 5.º ano do liceu.
1919
- Inicia o serviço militar, como voluntário, em
Infantaria, o que lhe proporciona a primeira viagem a Lisboa.
1921
- Em Lisboa, é redactor dos jornais A Pátria e A Imprensa de Lisboa
e do Última Hora.
1922
- Conclui o liceu em Coimbra e inscreve-se na Faculdade de Direito. Trabalha
como revisor na Imprensa da Universidade.
1923
- Ingressa na Maçonaria, na loja Revolta, de Coimbra. Morte do pai, a 7 de
Abril. Colaboração na revista Bizâncio, de Coimbra. Primeira viagem a
Espanha, com o Orfeão Académico: em Salamanca conhece Unamuno.
1924
- Abandona o curso de Direito e matricula-se na
Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Geográficas. Com Afonso Duarte,
António de Sousa, Branquinho da Fonseca, Gaspar Simões e outros, funda a revista
Tríptico.
1925
- Opta definitivamente pelo curso de Filologia Românica. Surge o jornal
Humanidade. Quinzenário de Estudantes de Coimbra, de que é redactor
principal Vitorino Nemésio. Colaboram, entre outros, José Régio, João Gaspar
Simões e António de Sousa.
1926
- A 12 de Fevereiro, casa com Gabriela Monjardino de Azevedo Gomes, de quem terá
quatro filhos, a primeira das quais, Georgina, nasce em Novembro.
1927
- Funda e dirige, com Paulo Quintela, Cal Brandão e
Sílvio Lima, Gente Nova. Jornal Republicano Académico.
1928
- Passa a colaborar na revista Seara Nova.
1929
- Início de correspondência com Miguel de Unamuno.
1930
- Nemésio colabora na Presença (n.º 27), Junho-Julho, e 29,
Novembro-Dezembro), com textos poéticos. Em Outubro transfere-se para a
Faculdade de Letras de Lisboa. Começa a pesquisa sobre Herculano que o ocupará
ao longo da vida.
1931
- Licencia-se na Faculdade de Letras de Lisboa, após o que inicia ali o
magistério, lecionando Literatura Italiana.
1933
- Começa a leccionar Literatura Espanhola (a par da Italiana) em Lisboa, na
Faculdade de Letras.
1934
- Passa por Salamanca para se encontrar pessoalmente com Unamuno. Início de
correspondência com Valery Larbaud. Inicia o desempenho das funções de chargé
de cours na Universidade de Montpellier. Larbaud lerá os poemas franceses de
Nemésio e proporcionar-lhe-á a chancela de um editor parisiense (Corrêa).
Doutoramento em Letras, em Outubro, com A Mocidade de Herculano até à Volta
do Exílio.
1935
- Colabora n'O Diabo com vários poemas.
1936
- Concorre a Professor Auxiliar da Faculdade de Letras.
1937
- Funda e dirige, em Coimbra, a Revista de
Portugal (n.º 1, Outubro), em cujo editorial, não assinado, se afirma: "Não
vamos traçar nenhum programa. O nosso melhor programa seriam vinte ou trinta
anos de vida e de realizações de cultura universal e portuguesa." Radica-se na
Bélgica e na Universidade Livre de Bruxelas lecciona, durante dois anos.
1939
- O n.º 7 (Abril) da Revista de Portugal publica o primeiro fragmento do
romance que virá a ter o título Mau Tempo no Canal ("Um ciclone nas
Ilhas"). Regressa a Portugal, para ensinar na Faculdade de Letras de Lisboa.
1940
- Concorre ao lugar de Professor Catedrático da Universidade de Lisboa.
1941
- Colabora com um poema nos Cadernos de Poesia.
1942
- Colabora na revista de António Pedro, Variante, e na de Ruy Cinatti,
Aventura.
1944
- É editada a primeira edição de O Mau Tempo no Canal. Colabora na
revista de Carlos Queiroz, Litoral (n.º 1, Junho).
1945
- O Prémio Ricardo Malheiros da Academia das
Ciências é atribuído a O Mau Tempo no Canal.
1946
- É colaborador regular no Diário Popular, com uma secção intitulada
"Leitura Semanal".
1947
- Colabora na revista Vértice ("Arquipélago dos Picapaus", vol. IV, n.º
52, Novembro-Dezembro).
1952 -
Primeira viagem ao Brasil, que se tornará um destino
frequente para Nemésio. Dela resultam os primeiros estudos, crónicas e poemas
brasileiros.
1955
- Viagem aos Açores, em Maio.
1956
- É Director, até 1958, da Faculdade de Letras de Lisboa, onde fora secretário
de 1944 a 47.
1958
- Lecciona no Brasil (Baía, Ceará, Rio de Janeiro, etc.).
1960 -
Intervém na reforma dos planos de estudos das
Faculdades de Letras então projectada. Viagem a África, relacionada com os
cursos de extensão universitária em Luanda e Lourenço Marques.
1963
- Efectua uma viagem à Holanda. É eleito sócio
efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.
1965
- Preside à Comissão Nacional do V Centenário de Gil Vicente, redigindo parte do
programa das comemorações. Nova viagem ao Brasil. A Universidade Paul Valery, de
Montpellier, doutora honoris causa o seu antigo leitor. Recebe o Prémio
Nacional de Literatura pelo conjunto da obra.
1966
- A Biblioteca e Arquivo Distrital de Angra comemora os "50 Anos da Vida
Literária de Vitorino Nemésio" com uma exposição bibliográfica e a realização de
conferências.
1969
- Inicia uma colaboração regular na RTP, com o programa "Se bem me lembro", que
o imporá como figura ímpar em matéria de comunicação audio-visual.
1970
- Inaugura as comemorações do centenário da Geração de 70 no Centro Cultural
Português de Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian.
1971
- A partir de Fevereiro, colabora regularmente na revista Observador. A
12 de Dezembo, profere a sua "Última lição" na Faculdade de Letras de Lisboa,
onde ensinara durante quase quarente anos.
1974
- Recebe o Prémio Montagine, da Fundação Freiherr von Stein/Friedrich von
Schiller, de Hamburgo. A Bertrand lança a primeira colectânea de estudos sobre a
obra de Nemésio.
1975
- Colabora na Homenagem ao Prof. Aurélio Quintanilha, a quem dedicará
Limite de Idade. A 11 de Dezembro, assume a direcção do jornal O Dia.
1977
- Coordenador nacional do centenário de Herculano.
1978
- A 20 de Fevereiro, morre em Lisboa, no Hospital da CUF, e será sepultado em
Coimbra, no cemitério de Santo António dos Olivais. Publica-se o primeiro estudo
em livro que lhe é exclusivamente consagrado: Vitorino Nemésio, a Obra e o
Homem, de José Martins Garcia.
O homem e o escritor projectados no futuro
António Valdemar
O sorriso de Marga
LUIS FAGUNDES DUARTE
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Julho de 2003:
Vitorino Nemésio, Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga,
OBRAS COMPLETAS, Vol. III, Imprensa Nacional-Casa da Moeda,2003. ISBN 972-27-1200-4
Sobre este livro, ver página neste site, aqui
Poesia
Canto Matinal.
Angra do Heroísmo, 1916.
Nave Etérea.
Coimbra, 1922.
La Voyelle Promise.
Coimbra, 1935.
O Bicho Harmonioso.
Coimbra, 1938.
Eu, Comovido a oeste.
Coimbra, 1940.
Festa Redonda
- Décimas &icom; Cantigas de Terreiro Oferecidas ao Povo da Ilha Terceira por
Vitorino Nemésio, Natural da Dita Ilha. Lisboa, 1950.
Nem Toda a Noite a
Vida. Ática. Lisboa, 1953.
O Pão e a Culpa.
Lisboa, 1955.
O Verbo e a Morte.
Colecção Círculo de Poesia. Lisboa, 1959.
Poesia (1935-1940).
Colecção Círculo de Poesia. Lisboa, 1961.
O Cavalo Encantado.
Colecção Círculo de Poesia. Lisboa, 1963.
Andamento Holandês e
Poemas Graves. Lisboa, 1964.
Ode ao Rio, ABC do Rio
de Janeiro. Rio de Janeiro, 1965.
Vesperais (1916-1918).
Angra do Heroísmo, 1966.
Canto de Véspera.
Colecção Poesia e Verdade. Lisboa, 1966.
Violão do Morro (...)
Seguido de Nove Romances da Bahia.
Lisboa. 1968.
Limite de Idade.
Colecção Auditorium (Livro e Disco). Lisboa, 1972.
Poemas Brasileiros.
Lisboa, 1972.
Sapateia Açoriana,
Lisboa, 1976.
Teatro
Amor de nunca mais,
Angra do Heroísmo, 1920.
Ficção
Paço do Milhafre.
Contos. Coimbra, 1924.
Varanda de Pilatos.
Romance. Lisboa, 1926.
A Casa Fechada.
Novelas. Coimbra, 1937.
Mau Tempo no Canal.
Romance. Lisboa, 1944.
O Mistério do Paço do
Milhafre. Contos. Lisboa, 1949.
Crónica e Viagens
O Segredo de Ouro
Preto e Outros Caminhos, Lisboa, 1954.
Corsário das Ilhas -
Notas de Viagens às Ilhas dos Açores.
Lisboa, 1956.
Viagens ao Pé da Porta.
Lisboa, 1965.
Caatinga e Terra Caída
- Viagens no Nordeste e no Amazonas.
Lisboa, 1968.
Jornal do Observador.
Lisboa, 1973.
Era do Átomo - Crise
do Homem.
Lisboa,
1976.
Biografia
e Crítica
Sob os Signos de agora
- Temas Portugueses e Brasileiros.
Coimbra, 1932.
A Mocidade de
Herculano até à Volta do Exílio (1810-1832).
Lisboa, 1934.
Isabel Aragão, Rainha
Santa, Coimbra, 1936.
Relações Francesas do
Romantismo Português. Coimbra, 1936.
Études Portugais - Gil
Vicente. Herculano. Antero de Quental, le Symbolisme.
Lisboa, 1938.
Gil Vicente, Floresta
de Enganos. Lisboa, 1941.
Vida de Bocage.
Lisboa, 1943.
Moniz Barreto -
Ensaios de Crítica. Lisboa, 1944.
Pequena Antologia da
Poesia Brasileira nos Séculos XVII e XVIII.
Coimbra, 1944.
Ondas Médias -
Biografia e Literatura. Lisboa, 1945.
Perfil de Adolfo
Coelho. Lisboa. 1948.
Destino de Gomes Leal
- Poesias Escolhidas. Lisboa, 1952.
Portugal e o Brasil no
Processo da História Universal. Rio de
Janeiro, 1952.
Perfil do Prof. Sousa
Júnior. Porto, 1953.
O Campo de São Paulo -
A Companhia de Jesus e o Plano Português do Brasil (1528-1563).
Lisboa, 1954.
Vida e Obra do Infante
D. Henrique. Lisboa, 1959.
Problemas
Universitários Luso-Brasileiros. Lisboa,
1955.
Conhecimento da Poesia.
Bahia, 1958, e Lisboa, 1970.
O Retrato do Semeador.
Lisboa, 1958.
Almirantado e Portos
de Quatrocentos. Lisboa, 1961.
Romance, Existência e
Visão do Mundo. Lisboa, 1964.
Elogio Histórico de
Júlio Dantas. Lisboa, 1965.
La Génération
Portugaise de 1870. Paris, 1971.
Quase Que os Vi Viver,
Lisboa, 1985.
Traduções
Traduziu, entre
outras obras, a História da Arte, de Henri Faure, e O Que É Vivo e o
Que É Morto na Filosofia de Hegel, de Benedetto Croce. Há traduções
italianas, francesas, inglesas e alemãs de Nemésio: Mau Tempo no Canal,
Le Serpent Aveugle, traduzida por Denyse Chast. Colecção Feux Groisés.
Paris; Ed. Plon; e tradução para inglês por Francisco Fagundes, com o título
Stormy Isles/Azorean Tale, lançada pela Gávea Brown; Isabel de Aragão,
edição espanhola, Isabel de Aragón, La Reina Santa de Portugal, traduzida
do portugês por Isabel Alcalde.
Barcelona. Editorial Olimpo.
Vitorino Nemésio aceita morrer em cada livro
Entrevista com Fátima Freitas Morna - Professora Universitária
Nemésio na voz de Amália
António Valdemar
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A vida em pedaços no mundo repartida
ANTÓNIO VALDEMAR
Pela sua origem e condição de açoriano, Nemésio desde o
nascimento à morte, permaneceu ligado a pequenos e grandes sítios: Praia, Angra,
Lisboa, Coimbra, França, Bélgica, Brasil. Há alusões contínuas celebradas em
prosa e verso. Aliás, um dos seus projectos era escrever acerca das cidades da
sua vida, tal como já fizera em relaçâo aos navios em que viajava, no seu
destino de ilhéu e embarcadiço. Esse desejo não se concretizou, embora deixasse
um levantamento sumário numa crónica das ruas de seu arruar, reabilitando
um verbo arquivado no velho dicionário Morais.
"A rua principal", observou, "é o foco do estilo de viver e por aí evocá-la é
dizer muito sobre as leis do comportamento humano. Ninguém consegue tornar-se
cidadão sem cruzar muitas vezes os seus semelhantes na terra que escolheu ou lhe
coube para morar, e todos eles tendem a afluir ao centro de cavaco e de trânsito
do aglomerado: à sua espinha dorsal. (...) a calle mayor da vila era a
Rua de Jesus, onde naturalmente muito passeei e aprendi - que a rua é escola do
homem, e "homem da rua" o ideal da limpa cidadania."
A Praia da Vitória, onde nasceu a 19 de Dezembro de 1901 - completa-se agora um
século -, só viria a ser elevada a cidade em 1982, mas isso não o impediu de a
considerar como tal: "Para que a Praia da Vitória fosse realmente cidade nem lhe
faltava, além do relevo urbano, o primeiro sentido daquela palavra em latim.
Cabeça de capitania, era um concelho velho e uma comarca recente. Da capitania
donatária ficara a glória e o ressentimento