19-12-2001

 

VITORINO NEMÉSIO

1901 - 1978

 

 

 

 

No final dos anos 80 (algures entre 1975 e 1979), tinha acabado de ler (com muito agrado) “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio, quando a RTP, num concurso qualquer de que me não lembro o nome, pediu sugestões de questões sobre o mesmo livro. Enviei um postal, sugerindo que se perguntasse aos concorrentes “Qual a origem do nome da cidade da Horta?”. A minha pergunta foi sorteada e recebi como presente uma colecção completa das obras de Alexandre Herculano, das Edições Bertrand. A cidade da Horta foi fundada pelo flamengo Joss Van Huertere, que teve a concessão da ilha do Faial em 1468 e que deu o nome à cidade. Eis a história do meu primeiro contacto com Vitorino Nemésio, que entretanto, começava a aparecer com regularidade na RTP, nas charlas com o título "Se bem me lembro...". Comemora-se este ano o centenário do seu nascimento e, felizmente, o DN e o PUBLICO dedicaram-lhe bem elaborados dossiers, que aqui reproduzo.

 

           

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Nemésio (1901-2001): um ilhéu do mundo

FELICIANA FERREIRA (Editora Opinião/Grande Reportagem


"Dou a minha última lição de professor na efectividade e em exercício, segundo a lei. Claro que a lei só tira o exercício ao funcionário: o homem exerce enquanto vive."


Com estas palavras, Vitorino Nemésio iniciou a sua última lição, proferida na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 9 de Dezembro de 1971.

Palavras sábias e certeiras, já que este açoriano de 13 gerações, poeta, ficcionista, professor, ensaísta e homem de afectos conturbados continuou a exercer a arte de comunicar até à sua morte, em 20 de Fevereiro de 1978.

Nome maior das letras portuguesas, autor deste "monumento" que é o romance Mau Tempo no Canal, impõe-se celebração condigna ao assinalarmos o centenário do seu nascimento. Assim, de hoje até quarta-feira, 19, o Diário de Notícias recordará Vitorino Nemésio nas suas páginas. E os laços do poeta a esta casa não são pequenos. A amizade com Augusto de Castro nasceu quando ambos viviam em Bruxelas, um, a exercer o cargo de embaixador, o outro de professor. No DN dos anos quarenta publicou Nemésio artigos vários, colaboração essa reforçada nos anos sessenta, no suplemento de Artes e Letras que então fazia parte do jornal. Prova desta ligação é o facto de ter sido o próprio Augusto de Castro a fazer-lhe o elogio quando Nemésio ocupou a cadeira de sócio efectivo da Academia das Ciências.

Homem das sete partidas, este ilhéu obcecado pelo mar fez-se ao mundo na vida e na arte. Correu terras enquanto homem, fez-se universal enquanto poeta.

"Quando penso no mar, o mar regressa / A linha do horizonte é um fio de asas / E o corpo das águas é luar; // De puro esforço, as velas são memória / E o porto e as casas / Uma ruga de areia transitória." Assim escreveu Nemésio num poema de O Bicho Harmonioso, intitulado "Correspondência ao Mar". E mais adianta acrescenta: "A certa forma que só teve em mim / Que onde ele acaba, o coração começa." A identificação entre o coração e a ilha não pode ser mais clara.

Pouco antes de morrer, Nemésio pediu ao filho para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais em Coimbra. Mas pediu mais: que os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.

Nós atrevemo-nos a outro pedido. A melhor maneira de celebrar Nemésio é lê-lo. E é aqui que começam os escolhos. Percorram-se as livrarias e procurem-se os seus livros. Quem assim fizer verá que os exemplares escasseiam ou até nem constam dos escaparates. Pior do que a travessia do canal é a indiferença de quem deveria saber.

DN, 16-12-2001

 

CRONOLOGIA:

1901 - A 19 de Dezembro, nasce Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores.

1912 - Inicia os estudos secundários no liceu de Angra.

1916 - Colabora no Eco Académico. Semanário dos Alunos do Liceu de Angra, desde o n.º 2 (13 de Fevereiro). Funda e dirige Estrela d'Alva. Revista Literária Ilustrada e Noticiosa, também em Angra do Heroísmo.

1918 - Conclui na Horta (Faial) o 5.º ano do liceu.

1919 - Inicia o serviço militar, como voluntário, em Infantaria, o que lhe proporciona a primeira viagem a Lisboa.

1921 - Em Lisboa, é redactor dos jornais A Pátria e A Imprensa de Lisboa e do Última Hora.

1922 - Conclui o liceu em Coimbra e inscreve-se na Faculdade de Direito. Trabalha como revisor na Imprensa da Universidade.

1923 - Ingressa na Maçonaria, na loja Revolta, de Coimbra. Morte do pai, a 7 de Abril. Colaboração na revista Bizâncio, de Coimbra. Primeira viagem a Espanha, com o Orfeão Académico: em Salamanca conhece Unamuno.

1924 - Abandona o curso de Direito e matricula-se na Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Geográficas. Com Afonso Duarte, António de Sousa, Branquinho da Fonseca, Gaspar Simões e outros, funda a revista Tríptico.

1925 - Opta definitivamente pelo curso de Filologia Românica. Surge o jornal Humanidade. Quinzenário de Estudantes de Coimbra, de que é redactor principal Vitorino Nemésio. Colaboram, entre outros, José Régio, João Gaspar Simões e António de Sousa.

1926 - A 12 de Fevereiro, casa com Gabriela Monjardino de Azevedo Gomes, de quem terá quatro filhos, a primeira das quais, Georgina, nasce em Novembro.

1927 - Funda e dirige, com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima, Gente Nova. Jornal Republicano Académico.

1928 - Passa a colaborar na revista Seara Nova.

1929 - Início de correspondência com Miguel de Unamuno.

1930 - Nemésio colabora na Presença (n.º 27), Junho-Julho, e 29, Novembro-Dezembro), com textos poéticos. Em Outubro transfere-se para a Faculdade de Letras de Lisboa. Começa a pesquisa sobre Herculano que o ocupará ao longo da vida.

1931 - Licencia-se na Faculdade de Letras de Lisboa, após o que inicia ali o magistério, lecionando Literatura Italiana.

1933 - Começa a leccionar Literatura Espanhola (a par da Italiana) em Lisboa, na Faculdade de Letras.

1934 - Passa por Salamanca para se encontrar pessoalmente com Unamuno. Início de correspondência com Valery Larbaud. Inicia o desempenho das funções de chargé de cours na Universidade de Montpellier. Larbaud lerá os poemas franceses de Nemésio e proporcionar-lhe-á a chancela de um editor parisiense (Corrêa). Doutoramento em Letras, em Outubro, com A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio.

1935 - Colabora n'O Diabo com vários poemas.

1936 - Concorre a Professor Auxiliar da Faculdade de Letras.

1937 - Funda e dirige, em Coimbra, a Revista de Portugal (n.º 1, Outubro), em cujo editorial, não assinado, se afirma: "Não vamos traçar nenhum programa. O nosso melhor programa seriam vinte ou trinta anos de vida e de realizações de cultura universal e portuguesa." Radica-se na Bélgica e na Universidade Livre de Bruxelas lecciona, durante dois anos.

 1939 - O n.º 7 (Abril) da Revista de Portugal publica o primeiro fragmento do romance que virá a ter o título Mau Tempo no Canal ("Um ciclone nas Ilhas"). Regressa a Portugal, para ensinar na Faculdade de Letras de Lisboa.

1940 - Concorre ao lugar de Professor Catedrático da Universidade de Lisboa.

1941 - Colabora com um poema nos Cadernos de Poesia.

1942 - Colabora na revista de António Pedro, Variante, e na de Ruy Cinatti, Aventura.

1944 - É editada a primeira edição de O Mau Tempo no Canal. Colabora na revista de Carlos Queiroz, Litoral (n.º 1, Junho).

1945 - O Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências é atribuído a O Mau Tempo no Canal.

1946 - É colaborador regular no Diário Popular, com uma secção intitulada "Leitura Semanal".

1947 - Colabora na revista Vértice ("Arquipélago dos Picapaus", vol. IV, n.º 52, Novembro-Dezembro).

1952 - Primeira viagem ao Brasil, que se tornará um destino frequente para Nemésio. Dela resultam os primeiros estudos, crónicas e poemas brasileiros.

1955 - Viagem aos Açores, em Maio.

1956 - É Director, até 1958, da Faculdade de Letras de Lisboa, onde fora secretário de 1944 a 47.

1958 - Lecciona no Brasil (Baía, Ceará, Rio de Janeiro, etc.).

1960 - Intervém na reforma dos planos de estudos das Faculdades de Letras então projectada. Viagem a África, relacionada com os cursos de extensão universitária em Luanda e Lourenço Marques.

1963 - Efectua uma viagem à Holanda. É eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.

1965 - Preside à Comissão Nacional do V Centenário de Gil Vicente, redigindo parte do programa das comemorações. Nova viagem ao Brasil. A Universidade Paul Valery, de Montpellier, doutora honoris causa o seu antigo leitor. Recebe o Prémio Nacional de Literatura pelo conjunto da obra.

1966 - A Biblioteca e Arquivo Distrital de Angra comemora os "50 Anos da Vida Literária de Vitorino Nemésio" com uma exposição bibliográfica e a realização de conferências.

1969 - Inicia uma colaboração regular na RTP, com o programa "Se bem me lembro", que o imporá como figura ímpar em matéria de comunicação audio-visual.

1970 - Inaugura as comemorações do centenário da Geração de 70 no Centro Cultural Português de Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian.

1971 - A partir de Fevereiro, colabora regularmente na revista Observador. A 12 de Dezembo, profere a sua "Última lição" na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinara durante quase quarente anos.

1974 - Recebe o Prémio Montagine, da Fundação Freiherr von Stein/Friedrich von Schiller, de Hamburgo. A Bertrand lança a primeira colectânea de estudos sobre a obra de Nemésio.

1975 - Colabora na Homenagem ao Prof. Aurélio Quintanilha, a quem dedicará Limite de Idade. A 11 de Dezembro, assume a direcção do jornal O Dia.

1977 - Coordenador nacional do centenário de Herculano.

1978 - A 20 de Fevereiro, morre em Lisboa, no Hospital da CUF, e será sepultado em Coimbra, no cemitério de Santo António dos Olivais. Publica-se o primeiro estudo em livro que lhe é exclusivamente consagrado: Vitorino Nemésio, a Obra e o Homem, de José Martins Garcia.

 

O homem e o escritor projectados no futuro

António Valdemar

Intelectual de grande prestígio, como escritor, poeta e professor universitário, Nemésio nasceu com o século XX e, também, viveu o século XX nas suas múltiplas transformações culturais, políticas e sociais. Remetemos os leitores para os factos e algumas minudências citados na sistematização cronológica de uma vida extensa e intensa e de uma resenha bibliográfica tão diversificada que publicamos nesta página de homenagem destinada a assinalar o centenário do nascimento.

Durante sucessivas décadas era muito reduzida a projecção da obra de Nemésio. Todavia, nos últimos trinta anos, verifica-se que declinou a popularidade que, anos e anos seguidos, impunha, vários escritores e poetas que, por um conjunto de circunstâncias, resvalaram para o esquecimento ou purgatório literário, enquanto Nemésio ganhou significativa audiência, em particular entre os jovens.

Daí Nemésio ser apontado pela crítica como o poeta português mais representativo deste século, depois de Fernando Pessoa. Dentro da modernidade não foi, todavia, um epígono de Pessoa. Na altura em que principiaram a surgir numerosas personalidades que se reclamavam íntimas,Nemésio em artigo de primeira página no Diário de Notícias, declarou que nunca com ele convivera, nem lhe falara pessoalmente. Isto apesar de conhecer a obra ortónima e heterónima de Pessoa e de, na Faculdade de Letras de Lisboa, ter sido o primeiro professor universitário a preencher com a Mensagem um concurso de provas públicas.

A problemática açoriana domina grande parte da criação de Nemésio. De todos os títulos, o que teve maior audiência nacional e internacional destaca-se Mau Tempo no Canal, obra de referência obrigatória de literatura portuguesa do século XX. Decorre nas ilhas do Faial, do Pico, de São Jorge e da Terceira. Todavia, pela estrutura narrativa, amplitude de concepção e forte carga simbólica, o romance transpõe o plano regional e nacional para se integrar numa dimensão universal.

Além da ficção, Nemésio na poesia, na crónica, no ensaio e na biografia voltou a aprofundar a realidade açoriana nos seus diferentes aspectos. Abrangeu, contudo, outras regiões e outros temas nacionais e estrangeiros, com especial incidência na Europa e no Brasil. Por vezes confronta-nos com a erudição compacta, a pesquisa aturada, a fim de reconstituir e analisar figuras, épocas, civilizações e culturas. É, por exemplo, o caso de Herculano, que tornou vivo e definiu como "Portugal de alto a baixo, no que tem de forte e terroso".

Sem dissociar, neste contexto, uma personalidade de inesgotável calor humano, a imagem de Nemésio ressalta nas crónicas e pequenos ensaios, nos livros feitos de "papéis avulsos" escritos "sob várias pressões" no que classificou o seu "jornal" "tanto no sentido de diário íntimo, como de uma espécie de periódico pessoal hospedado em folhas alheias".

Neles se depara, com toda a autenticidade e a par de uma esmagadora bagagem cultural, um forte poder imaginativo e um testemunho de experiências pessoais e confidências de amigos. Quase sempre numa perspectiva de indagação do homem e do seu comportamento na sociedade. Qualquer que fosse a perspectiva, reflectia a ansiedade do seu espírito e sensibilidade, em permanente mobilização para todos os domínios do conhecimento e um humanismo aberto à esperança.

DN, 16-12-2001 

 

O sorriso de Marga

                   LUIS FAGUNDES DUARTE 

 

Quando foi internado no hospital onde haveria de morrer, Vitorino Nemésio tinha em mãos o minucioso trabalho de cópia de um conjunto importante de poemas escritos entre 28 de Março de 1973 e 14 de Maio de 1977 (circulando então o poeta por Lisboa e arredores, Nice, Barcelona e Açores) para o livro que haveria de chamar-se Caderno de Caligraphia e que ficaria inédito. O livro era dedicado a D. Margarida Victória, Marquesa de Jácome Correia (Ponta Delgada, 31-3-1919 - Lisboa, 21-7-1996) - e todos os poemas que o constituem são poemas de amor.

Os contornos da história deste livro são tão imprecisos quanto o foram os amores do poeta e da sua inspiradora: para os traçar, teremos que nos limitar às referências pontuais feitas pelo poeta nos próprios textos, às datas e locais de composição (que muitas vezes não são de fiar em Nemésio, que não raro os acrescentava a posteriori, de memória, quase como se fossem postiços de uma ficção) - e à memória de D. Margarida Victória que, retendo embora factos isolados sobre esta matéria, era totalmente arredia a situá-los e a relacioná-los com precisão no tempo.

 

 

Segundo me confidenciou a própria Margarida Victória, nos últimos tempos, Nemésio entretivera-se a copiar, aos serões, na casa da Rodrigo da Fonseca, para dois caderninhos de recolha de autógrafos, num jeito de adolescente apaixonado, os poemas cujos originais, anos depois, eu iria encontrar - entre cartas, postais, notas de viagem, apontamentos vários e telegramas, da mão de Nemésio ou por ele assinados e dirigidos ou dedicados a D. Margarida -, nos mais diversos estados de acabamento genético, alguns deles já dactilografados e com aspecto de original para tipografia, para além de uma série de outros poemas soltos e ainda de dois envelopes com poemas, um deles com a indicação autógrafa "para copiar", e o outro, classificado como "secreto" pela mão do autor, que continha diversos textos de cariz erótico; a ligar todos estes documentos, referências explícitas, sempre, a D. Margarida, seja pelo nome próprio, seja por nomes poéticos usados nos poemas dos cadernos - "Marga", "Macaca de Fogo", "Marquesinha", etc. -, seja ainda pela designação "Filha de Ayres Correia" (o pai de Margarida Victória) ou por referências a São Miguel e à relação de D. Margarida com esta ilha. Em vários dos originais encontram-se indicações autógrafas como "album" ou "para o livrinho" que, ligadas a uma outra, bastante mais explícita, "P.ª; o novo "album caligráfico" da menina Margarida Victória. [O seu menor criado] Vitorino Nemésio" inscrita na margem superior de uma cópia de carbono do dactiloscrito do poema Oh Ilha de São Miguel, [Verde em bagacina escura], devem ser interpretadas como referidas a este livro. Os originais autógrafos integram actualmente, uns, o "Fundo Jácome Correia", e outros, o espólio do próprio escritor, ambos depositados na Biblioteca Nacional. Dos 113 poemas que até ao momento consegui identificar e reunir como claramente destinados a este livro, Nemésio apenas teve tempo de copiar e arrumar 57; mas, ainda segundo D. Margarida, o poeta terá manifestado preocupação, já no leito de morte, pela não publicação do livro, e terá designado Natália Correia como a pessoa mais indicada para se ocupar da preparação do original.

Mas, afinal, de que falamos quando falamos de Caderno de Caligraphia? Para já, referimo-nos a dois vulgares cadernos de recolha de autógrafos, que poderão ser observados na exposição Rotação da Memória, actualmente disponível na Biblioteca Nacional; o primeiro deles está totalmente preenchido por 53 poemas copiados pela mão de Nemésio, ostenta na folha de rosto, em letra desenhada e em grafia estilística, o título Caderno de Caligraphia Pertencente à menina Margarida Victória Q. lhe ofereçe o victorino nemésio, e a data Lisboa, 29 de Março de 1973, que é também a do primeiro poema da colectânea, e termina com um Índice de primeiros versos; o segundo, que o autor nomeou 2.º Caderno de Caligraphia Offereçido à menina Margarida Victória pelo seu menor criado e bem querido Victorino Nemésio e datou de Lisboa, 4 de Junho de 1977, apenas contém quatro poemas, indicação clara de que o processo de cópia foi bruscamente interrompido. Os dois cadernos contêm diversos desenhos autógrafos, que funcionam em diálogo ou como ilustração de alguns dos poemas. Apenas um destes poemas havia sido entretanto publicado pelo próprio autor: Pedra de Canto, na Colóquio/Letras, n.º 35, de Janeiro de 1977. Dos restantes poemas não copiados para os cadernos, mas dedicados ou referidos a D. Margarida, também apenas um fora publicado: Torres de Ponta Delgada, que podemos encontrar no livro Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas, de 1976, sob o título "Alarme nas Ilhas".

Foi em Abril de 1986 que chegou ao meu conhecimento que D. Margarida Victória tinha em seu poder um livro inédito de poesia de Vitorino Nemésio - o último livro de Nemésio - pronto para ser editado, e que gostaria que eu, como filólogo e como açoriano, me ocupasse dele dado que, passados oito anos sobre a morte de Nemésio, Natália Correia ainda não fizera o que lhe fora solicitado nem, segundo ela própria me afirmaria, tencionava fazê-lo. Ficou então decidido avançar-se com a publicação do livro, iniciaram-se de imediato as negociações com a Bertrand, que então detinha os direitos de publicação da obra nemesiana, apontou-se para que o livro estivesse nas bancas por finais de 1986, e decidiu-se que os lucros da comercialização do livro seriam aplicados na constituição de uma bolsa a ser atribuída a um jovem investigador que quisesse dedicar-se à obra de Vitorino Nemésio.

Porém, surgiram alguns problemas relacionados com direitos de autor e de publicação, a que D. Margarida era legalmente alheia, a Bertrand perdeu os direitos de publicação, que foram adquiridos pela Imprensa Nacional, e o projecto de publicação do livro, uma vez mais, gorou-se. Agora, passados mais quinze anos, parece que se tornou finalmente possível a publicação deste livro pela Imprensa Nacional, como mais um volume de poesia das Obras Completas de Vitorino Nemésio - um livro que agora me sabe a duas vezes póstumo: póstumo de Nemésio, que o queria ver publicado em homenagem a D. Margarida Victória, a sua Marga; e póstumo de D. Margarida, que não teve a alegria de ver satisfeito aquele que, ainda pouco antes de morrer, me afiançava ser o derradeiro desejo do poeta Vitorino Nemésio, que ela ainda recordava como seu "pai, irmão e amante": a publicação deste Caderno de Caligraphia que, acrescido dos poemas que o autor não teve tempo de copiar, sairá em breve com o título ampliado para Caderno de Caligraphia &icom; Outros Poemas para Margarida Victória.

Só então terá seu registo legal a firma Margarida Victória Jácome Correia e Victorino Nemésio, Ficcionistas da Realidade, Realistas da Ficção, com oficina na Fajã de Baixo, Ilha de São Miguel, e no Porto Martim, Ilha Terceira - tal como consta de um projecto de cartão de visita saído do punho do próprio Nemésio e que D. Margarida, um dia, me mostrou com aquele sorriso que só quem a conheceu poderá entender. Deveria ser aquele o sorriso de Marga.

   

 

Julho de 2003:

Vitorino Nemésio, Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga,

OBRAS COMPLETAS, Vol. III, Imprensa Nacional-Casa da Moeda,2003. ISBN  972-27-1200-4

Sobre este livro, ver página neste site, aqui

BIBLIOGRAFIA

 Poesia

Canto Matinal. Angra do Heroísmo, 1916.

Nave Etérea. Coimbra, 1922.

La Voyelle Promise. Coimbra, 1935.

O Bicho Harmonioso. Coimbra, 1938.

Eu, Comovido a oeste. Coimbra, 1940.

Festa Redonda - Décimas &icom; Cantigas de Terreiro Oferecidas ao Povo da Ilha Terceira por Vitorino Nemésio, Natural da Dita Ilha. Lisboa, 1950.

Nem Toda a Noite a Vida. Ática. Lisboa, 1953.

O Pão e a Culpa. Lisboa, 1955.

O Verbo e a Morte. Colecção Círculo de Poesia. Lisboa, 1959.

Poesia (1935-1940). Colecção Círculo de Poesia. Lisboa, 1961.

O Cavalo Encantado. Colecção Círculo de Poesia. Lisboa, 1963.

Andamento Holandês e Poemas Graves. Lisboa, 1964.

Ode ao Rio, ABC do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1965.

Vesperais (1916-1918). Angra do Heroísmo, 1966.

Canto de Véspera. Colecção Poesia e Verdade. Lisboa, 1966.

Violão do Morro (...) Seguido de Nove Romances da Bahia. Lisboa. 1968.

Limite de Idade. Colecção Auditorium (Livro e Disco). Lisboa, 1972.

Poemas Brasileiros. Lisboa, 1972.

Sapateia Açoriana, Lisboa, 1976.

Teatro

Amor de nunca mais, Angra do Heroísmo, 1920.

Ficção

Paço do Milhafre. Contos. Coimbra, 1924.

Varanda de Pilatos. Romance. Lisboa, 1926.

A Casa Fechada. Novelas. Coimbra, 1937.

Mau Tempo no Canal. Romance. Lisboa, 1944.

O Mistério do Paço do Milhafre. Contos. Lisboa, 1949.

Crónica e Viagens

O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos, Lisboa, 1954.

Corsário das Ilhas - Notas de Viagens às Ilhas dos Açores. Lisboa, 1956.

Viagens ao Pé da Porta. Lisboa, 1965.

Caatinga e Terra Caída - Viagens no Nordeste e no Amazonas. Lisboa, 1968.

Jornal do Observador. Lisboa, 1973.

Era do Átomo - Crise do Homem.
Lisboa, 1976.

 Biografia e Crítica

Sob os Signos de agora - Temas Portugueses e Brasileiros. Coimbra, 1932.

A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1810-1832). Lisboa, 1934.

Isabel Aragão, Rainha Santa, Coimbra, 1936.

Relações Francesas do Romantismo Português. Coimbra, 1936.

Études Portugais - Gil Vicente. Herculano. Antero de Quental, le Symbolisme. Lisboa, 1938.

Gil Vicente, Floresta de Enganos. Lisboa, 1941.

Vida de Bocage. Lisboa, 1943.

Moniz Barreto - Ensaios de Crítica. Lisboa, 1944.

Pequena Antologia da Poesia Brasileira nos Séculos XVII e XVIII. Coimbra, 1944.

Ondas Médias - Biografia e Literatura. Lisboa, 1945.

Perfil de Adolfo Coelho. Lisboa. 1948.

Destino de Gomes Leal - Poesias Escolhidas. Lisboa, 1952.

Portugal e o Brasil no Processo da História Universal. Rio de Janeiro, 1952.

Perfil do Prof. Sousa Júnior. Porto, 1953.

O Campo de São Paulo - A Companhia de Jesus e o Plano Português do Brasil (1528-1563). Lisboa, 1954.

Vida e Obra do Infante D. Henrique. Lisboa, 1959.

Problemas Universitários Luso-Brasileiros. Lisboa, 1955.

Conhecimento da Poesia. Bahia, 1958, e Lisboa, 1970.

O Retrato do Semeador. Lisboa, 1958.

Almirantado e Portos de Quatrocentos. Lisboa, 1961.

Romance, Existência e Visão do Mundo. Lisboa, 1964.

Elogio Histórico de Júlio Dantas. Lisboa, 1965.

La Génération Portugaise de 1870. Paris, 1971.

Quase Que os Vi Viver, Lisboa, 1985.

Traduções

Traduziu, entre outras obras, a História da Arte, de Henri Faure, e O Que É Vivo e o Que É Morto na Filosofia de Hegel, de Benedetto Croce. Há traduções italianas, francesas, inglesas e alemãs de Nemésio: Mau Tempo no Canal, Le Serpent Aveugle, traduzida por Denyse Chast. Colecção Feux Groisés. Paris; Ed. Plon; e tradução para inglês por Francisco Fagundes, com o título Stormy Isles/Azorean Tale, lançada pela Gávea Brown; Isabel de Aragão, edição espanhola, Isabel de Aragón, La Reina Santa de Portugal, traduzida do portugês por Isabel Alcalde.
Barcelona. Editorial Olimpo.

 

Vitorino Nemésio aceita morrer em cada livro

Entrevista com Fátima Freitas Morna - Professora Universitária

Em Vitorino Nemésio coabitam o poeta, o ficcionista, o biógrafo, o crítico, o ensaísta, o cronista, o professor....

Nemésio é, sobretudo, poeta. Diz, num dos Se Bem me Lembro, que tudo o que ele é é poeta, poeta, poeta. A poesia dir-se-ia a única actividade ininterrupta mantida entre 1915/16 e 1976. A produção do ficcionista é muito circunscrita. Irá até ao fim da vida tentar escrever outro romance, mas há-de morrer, do seu ponto de vista, autor de um romance único, embora tenha publicado dois.

Havendo um dramatismo na linha da reflexão existencial, ele é, de algum modo, interceptado por uma auto-ironia? Ou não?

Se alguma coisa une todo o percurso do poeta é aquilo que ele próprio diz no prefácio de 1961 à Poesia 1935-1940: a busca do sentido da existência, uma busca dramática na medida em que se trata de um sujeito que tenta absorver o mundo para o comunicar. É um movimento de constante sístole e diástole.

Não será por acaso que ele utiliza a metáfora do coração na acepção de pulsação, pois há uma saída e regresso do sujeito carregado de mundo. A utilização dessa metáfora, que perdeu a ligação à sentimentalidade, é um ponto excelente para ver qual a raiz profunda da poesia de Nemésio: a grande raiz da modernidade europeia, romântica, como a entende Octavio Paz, que faz remontar ao romantismo o impulso da modernidade.

Nemésio é um moderno novecentista, que, como todos os modernos, tem um forte sentido de auto-ironia.

Faz-se coincidir a obra nemesiana com o movimento da "Presença". Acha redutor?

Geracionalmente, é um homem da Presença. O que Vitorino Nemésio tem de verdadeiramente presencista, e quase mais do que Régio, é o sentido de uma "literatura viva" - o credo presencista -, e não livresca. Régio declarou-o, Nemésio praticou-o, distanciando-se da Presença enquanto filiação estética restritiva.

O psicologismo de Nemésio era muito mais objectivo?

Como homem da sua geração, foi tentado, sobretudo na prosa, pelo psicologismo. Na poesia, não lhe fez falta. Na primeira das Artes Poéticas que escreveu, n'O Bicho Harmonioso, diz que poesia do abstracto, não.

A poesia não é nem o abstracto, nem o concreto, e a dimensão psicológica não faz sentido sem a integração no mundo. Poesia é outra coisa, está para lá, é síntese, vértice. Escreve em Requiescat (Limite de Idade): "Direi - não "fora!" ao mundo que me cinge/(Outro onde o sei e como chegaria?)".

Como relaciona a obra de Nemésio com o segundo modernismo?

Nemésio é, geracionalmente, um homem do segundo modernismo, que surge para a literatura depois das vanguardas. Claramente alguém depois de Pessoa.

O jogo de espelhos entre Pessoa e Nemésio faz-se como?

Ele próprio o faz em O Poema é o Portador e O Poeta é um Mostrador (O Verbo e a Morte). Ambos são a resposta ao fingidor de Pessoa. Nemésio reestrutura a herança da modernidade, desde o século XIX, e a herança modernista do arranque do século.

Não há heteronímia em Nemésio, mas aquilo que considera ser uma personalidade proteica.

Ele não precisa de outros nomes para os vários poetas nele. E nunca deixa de ser um universo poético, o sistema.

Pessoa também é um sistema...

Pessoa expõe a alteridade ostensivamente, é o passo para essa modernidade que assume a pluralidade das diferenças. Nemésio mão precisa de expor essa alteridade na ficção de várias identidades civis. Assume-a na escrita.

Fernando Pessoa não viveu. Vitorino Nemésio viveu?

Claro e, se quiser, viveu outros seres civis em conjunto com o poeta: o jornalista, o professor, o ensaísta, o ficcionista.

A abordagem do tempo é significativa ao nível da reflexão sobre a condição humana...

A concepção do tempo é muito mais do que o pormenor biográfico implícito nos versos. Parte da perecibilidade, do instantâneo. Em larga medida, um poeta escreve - e Nemésio di-lo de inúmeras formas - para inscrever uma pegada no tempo, sabendo que ela é só relativamente persistente. Mas essa é a maldição da condição humana: tentar ser tempo. Quase tempo em carne viva.

O pendor memorialista de Nemésio tem a ver com isso?

Memória é aquilo que une todo o tipo de actividade. Nemésio escreveu que a literatura memorialística é uma maneira de tornar presente o passado e deixar o presente para o futuro. Uma das coisas mais bonitas do percurso poético de Nemésio é a transposição desse tempo registado na memória circunscrita, particular, identificável em seres, pormenores, espaços, para um dos poemas do Limite de Idade: "Da fundura do tempo ucrónico, sem duração nem forma,/Rebenta tempo real, tempo de coisas".

Ser, Nada, Tempo, Morte... Há ou não uma inspiração existencialista na temática nemesiana, como diz Fernando Guimarães?

Existencialista mais no sentido de uma fenomenologia. Como lugar de encontro com um dado momento das mentalidades. Não como adesão a um sistema.

A relação do escritor com o sagrado parte da perda e da ausência? "Com medo de o perder nomeio o mundo"...

O Ser, o Nada, o Tempo, a Morte convergem no Tempo, na sua dimensão humana. A transcendência é um não tempo. Será uma ausência, uma carência, um horizonte para que se aponta.

Um homem da dúvida, Nemésio?

Até ao fim. A trajectória da obra quase se vai desmentindo. A década de 50 é explosiva na diversidade. Há livros que quase podiam ser assinados por poetas diferentes, apesar das zonas de contaminação e contágio. Nem sequer existem as certezas estéticas, até porque não as tem de outra ordem. Octavio Paz diz que é moderno quem aceita morrer. O bonito do poeta Nemésio é aceitar morrer em cada livro.

Nemésio diz que a poesia se irmana à metafísica e à mística.

A poesia que lhe interessava era a que refundia a relação entre a escrita e a metafísica, recuperando a raiz platónica, do poeta que assinala a ausência, que lida com as sombras no interior da caverna, sabendo que lá fora há outra coisa. Mas a poesia de Nemésio não é mística. Nunca apaga a sua realidade verbal e a sua relação com o mundo em favor de outra coisa.

Num momento em que se fala tanto da poesia da experiência e do real, não deixa de ser curioso reflectir-se sobre essa espécie de "mito comum"...

Se calhar a indagação metafísica surge num ou dois dos poetas Nemésio, mas seguramente está ausente em muitos outros que se interessam pelo tempo real, tempo de coisas. Nemésio tem aquela modernidade espantosa de escrever nos anos 60 como poetas dos anos 80 virão a escrever, captando o pormenor da dimensão voluntariamente prosaica, na experiência de vazar o quotidiano. O Andamento Holandês é, nesse sentido, profundamente prosaico.

Joaquim Manuel Magalhães filia "alguns da nova poesia portuguesa" nessa tradição...

E julgo que ainda o faz. Vitorino Nemésio é um poeta de longo curso, polimórfico, que foi capaz de criar em si poetas sempre novos e diferentes. Não perde por isso o contacto com as camadas geracionais seguintes. Não tem medo de alterar a linguagem. Escreve em Limite de Idade: "Não negarei poesia de antes/Com poesia de depois".

Há sempre o apelo do arquipélago - a tal "ilha arcaica"...

Nemésio diz numa carta a Casais Monteiro, a propósito da sua definição como ficcionista: "Não posso simplificar muito o meu estilo, porque, bem vê, para mim, como para Baudelaire, as coisas respondem umas às outras". Tudo é analogia. A ilha é o universo, eixo do mundo, microcosmo. Um universo de experiência e de teste. O ilhéu é, para ele, uma rocha tendo em volta o mar. Excelente metáfora do ser humano.

Nemésio regionalista/universalista. Actual, a questão?

Muito datada, é uma questão de geração, obsessiva sobretudo para o ficcionista, afinal, o dilema do final da década de 20: ser por Aquilino ou por Brandão.

"Passo do Milhafre" ressentia-se de um certo regionalismo à semelhança de Aquilino...

Em Passo do Milhafre, Nemésio tentou transpor ficcionalmente o universo ilhéu, e sofreu com a acusação de regionalista, um dos argumentos para os presencistas considerarem que ele não era moderno. A partir daí, e até ao Mau Tempo no Canal, tentará configurar esse universo como outra coisa. Nesse sentido, trata-se de um percurso coerente.

Como conjugava Vitorino Nemésio a erudição com a inspiração popular?

Detestava a palavra erudição. Nemésio era assistemático, porque analógico. Achava que o saber é memória. Sofreu muito a fazer a tese, porque lhe repugnava o registo concreto dos passos de prova. Então, saltava rapidamente. E a erudição dir-se-ia algo de muito moroso. O Se Bem me Lembro passa por aí: lembrar-se que algures leu qualquer coisa, mas não perder tempo a buscar a fonte. O que o atraía era a interpretação, na qual era veloz..

                                                        ANA MARQUES GASTÃO (Jornalista)

 

 

Nemésio na voz de Amália

                                   António Valdemar

   

A voz de Amália poderá aproximar centenas e centenas de milhar de pessoas das homenagens a Nemésio, durante as comemorações do centenário do nascimento que decorrerão a partir de 19 de Dezembro deste ano.

Foi através de David Mourão-Ferreira que se estreitaram as relações entre ambos (David era, ao tempo, casado com uma sobrinha de Valentim de Carvalho, editor dos discos de Amália, que contou com a colaboração fundamental de João Belchior Viegas).

Amália tinha grande admiração por Nemésio. Recebia-o em sua casa, com primores de gentileza e requintes de fidalguia. Em sinal de muito apreço, resolveu incluir no seu reportório a Décima de Sílvio e Silvana, um dos mais representativos poemas da Festa Redonda. Esteve para estrear num projecto de José Pracana a difundir na ilha do Corvo para todo o mundo lusófono. Ambos me honraram com o convite para escrever o texto de apresentação desse espectáculo.

 
  Lopes de Araújo, que estava à frente da Televisão nos Açores, deu todo o apoio. Sucedeu que Alain Oulman musicava, na altura, versos de Cecília Meireles e não pensava noutra coisa. Amália avançou com uma interpretação da Décima reservando, para logo que possível, os arranjos do compositor ou, se ele entendesse, uma versão apenas da sua autoria.

Decorrido algum tempo falecia Alain Oulman, em Paris. Amália resolveu, por isso, gravar a sua concepção musical da Décima de Silvio e Silvana. Alguns amigos que a visitavam tiveram o privilégio de a conhecer. Sou dos que a ouviu muitas vezes. E sempre com fascínio.

Quanta emoção ao cantar: Tem sinais de anjo na cara/e de cabrinha no pé (...) O seu pente é um triste cardo,/a sua vida é chorar (...) Retraça cachinhos de uvas./A terra dá flores de sangue,/O céu agulhas de prata;/Uma sereia escondida/Canta, canta que se mata;/Toca flauta!e tu, Silvana,/Queima o teu pente dorido /sirva-te o mar de cabelo!/Silvio - navio perdido.

Nas sucessivas estrofes daquela Décima (24 salvo erro), João David Pinto Correia, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, num ensaio notável sobre Voz e Povo na Poesia de Vitorino Nemésio, identificou "a dimensão lendária de uma Sereia Melusina com sinais de Dama de Pé de Cabra mas transformada em Bela Infanta". Para além do que Pinto Correia salientou e do que há de raiz e sentimento açoriano, Amália - pude confirmá-lo - via, revia e sentia na Décima de Silvio e Silvana o seu retrato ou o retrato que desejava para fundamentar a sua dupla condição de mulher e de artista.

Numa das inesquecíveis reuniões em casa de Amália, solicitei-lhe uma cópia da gravação. Acedeu com todo o gosto dando indicações (lembra-se Theresa Mimoso?) para que me fosse entregue uma cassete. Voltei a pedir. Pedi outra vez. Possivelmente, ainda mais outra vez. Surpreendida de não me ter sido entregue a cassete, Amália voltou a recomendar que me cedessem cópia da gravação. De adiamento em adiamento passaram os meses. Muito mais de um ano, até que surgiu o ponto final colocado pela morte.

Mas (ça c'est seulement un détail...) tudo me faz supor que essa gravação ainda deve permanecer no espólio da casa de São Bento, oportunamente, transformada em fundação e museu. Dirijo, portanto, um apelo ao presidente da fundação, Amadeu Aguiar, ou aos seus administradores, os meus amigos e conterrâneos Lopes de Araújo e Fernando Machado Soares para que - na observância dos respectivos direitos de autor - essa interpretação, até agora inédita, seja editada no centenário de Nemésio.

No âmbito do programa agendado ou a agendar (entre 2001 e 2002 e com o habitual predomínio de conferências e simpósios reservados a eruditos), a Décima de Silvio e Silvana na voz de Amália representará um dos momentos de maior impacto nas comemorações a efectuar nos Açores, no restante espaço português e, ainda, nos países da emigração, em especial, onde se encontram radicadas as comunidades açorianas.

 DN 4-10-2001 

 

 

 

 

 
A concha
 
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
 
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
 
E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
 
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

 

 

 

 

O CÃO ATÓMICO

 

1.

Este cão tem folhas nas orelhas,
com quatro talos
mas o que este cão deveria ter era calos,
e só tem olhos e ossos
e morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
quase o diria meu irmão
parece gente!

 

2.

Este cão é redondo. Está deitado,
rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
mas perdeu a alcateia
como os homens perderam a razão,
que hoje serve de osso ao cão
escapou ao cogumelo nuclear,
e por isso se foi deitar.

 

 

 

 

 

 

Outro Testamento

 

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

 

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

 

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

 

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

 

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

 

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

 

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar

 

 

 

 

 

 

Nova bárbara escrava

 

Barborinha uma crioula:
Faz de bahiana evocada
Num hotel de vidro e avenca;
Usa torço cor-de-rosa,
Pano-da-costa fingido,
Chambre crivado no seio:
Seu balangandã preserva-a
Bem menos que seu enleio.
Para não ver os meus olhos
– Figa branca, figa preta -
Atira-as pra trás nas costas,
Tão bem, que só vê diante
A cuia do vatapá:
Mas eu sei quantas pancadas,
Vindo assim, seu peito dá.
Peixinho moreno, pula
No aquário do hotel de luxo
Como gota de água ao céu:
Tem vergonha de ser mate,
O seu passo é como um véu.
Barborinha é uma crioula
(Mulatinha era demais):
As cores, à parte, são várias:
Unidinhas, são iguais.
Vem servir-me cor-de-rosa,
Parda me serve xinxim
(Pérfido, atraso o jantar
Fitando-a entro e mim).
Mas o que serve em verdade
A Barborinha morena,
Na sua saia bahiana
Com roda de campainha,
Não é o envisco que comem
Os peixes do hotel de vidro,
Mas a sua graça apenas.
Tão quente (sendo ela fria)!
E as mãos! as mãos! – tão pequenas,
Tão pequenas, que eu diria
Que as fazem penas – e fogem
As aves que há na Bahia!

 

 

 

 

 

 

NOZ DE FOGO

 

Tu me deste a Palavra, a noz do fogo
Se o miolo te ficou tenho os dedos queimados.
Dá Deus nozes, Senhor... Sem dentes, desde logo,
Teu Banquete revolta os desdentados.

 

O Pão esperou na Voz fome e saliva
Ninguém comeu senão da própria suficiência:
Ao menos o Menino tem gengiva,
Saboreia a inocência.

 

Tende piedade dos Críticos,
Dai-lhes o Best-Seller
Engrossarão o seu coro.
Tudo o que for Sentido - desterrado
E oculto no choro!

 

Fazei guardar por anjos
A Significação
E em nossa carne eles tenham
Ceva e consolação.
À entrada do Verbo, imo da Morte,
Ponde uma folha a espada:
Guardaremos a Vida e o sangue ao Norte
Do Nada.

 

 

 

 

 

 

Arte Poética

 

A poesia do abstracto...

Talvez.

Mas um pouco de calor,

A exaltação de cada momento

É melhor.

Quando sopra o vento

Há um corpo na lufada;

Quando o fogo alteou

A primeira fogueira,

Apagando-se fica alguma coisa queimada.

É melhor...

Uma ideia

Só como sangue de problemas;

No mais, não,

Não me interessa.

Uma ideia

Vale como promessa

E prometer é arquear

A grande flecha.

O flanco das coisas só sangrando me comove,

E uma pergunta é dolorida

Quando abre brecha.

Abstracto!

O abstracto é sempre redução,

Secura;

Perde -

E diante de mim o mar que se levanta é verde:

Molha e amplia...

Por isso, não:

Nem o abstracto nem o concreto

São propriamente poesia.

A poesia é outra coisa.

Poesia e abstracto, não.

 

 

 

 

 

 

 

Indício Velado

 

Não toques, distância, no seu cabelo molhado;

Não lhe mexas. Rosto puro, às aguas posto e preso,

Uma imagem será o seu único peso,

Um pensamento o único beijo que me há dado.

 

Que o Índico persiga o indício velado;

Decore o Mar Vermelho o forte rosto aceso -

Mas não para morrer: para menos desprezo;

E eu próprio fique em meu amor atenuado.

 

Oh! platónico amor de ninguém e de alguma,

Espectro que criei e rodeei de lágrimas,

Vénus ainda ao longe no aro da minha espuma!

 

Imagem, força de vontade, imagem

Viva ou morta, não sei; imagem acre... mas

Verdadeira e suave, isso mais que nenhuma!

 

 

 

 

 

 

ROCHA DO MAR

Ao Armando Santos, primo e poeta


Já uma vila dos Açores
Loze ligeira no horizonte.
Será num alto das Flores,
No Pico ou logo de fronte,
Espraiadinha num cume
Ou encolhida em Calheta?
O ser nossa é que resume
Seus amores de pedra preta.
Para vila da Lagoa
Falta-lhe a cidade ao pé,
A distância de Lisboa
Já não me lembro qual é.
Para Vila Franca ser
Falta-lhe o ilhéu à ilharga,
É airosa pra se ver,
Mais comprida do que larga.
Povoação não me parece,
Nos padieiros não condiz,
Aos camiões estremece,
Mas não aguenta juíz.
Pra Ribeira Grande falta-lhe
O José Tavares no quintal,
Rija cantaria salta-lhe
Dos cunhais, branca de cal,
Mas não é Ribeira Grande:
Essa merecia foral!
No dia em que haja quem mande
Será cidade mural.
Nordeste - só enganada
Na vista da Ilha Terceira,
Longe de Ponta Delgada,
Sua sede verdadeira.
Nem Vila do Porto altiva,
A mais velha da fiada,
Em suas ruas cativa
Como princesa encantada.
De cimento a remendaram,
Coroaram-na de aviões,
Mas eternos lhe ficaram
Os bojos dos seus tàlhões.
Se é a Praia da Vitória
Não lhe reconheço a saia:
Enchem-lhe a areia de escória,
Ninguém diz que é a mesma Praia.
Talvez seja Santa Cruz
Da Graciosa, ou a sua Praia,
Com o Carapacho e a Luz
Cheirando a lenha de faia.
De S. Jorge a alva Calheta
Ou a clara vila das Velas,
E o alto, alvadio Topo
Com um monte de pedra preta
Dando realce às janelas.
As Lajes ou o Cais do Pico,
A escoteira Madalena
Vilas são de vinho rico,
Qual delas a mais morena.
Santa Cruz das Flores seria
Essa vila açoriana
Ou as Lajes de cantaria
Do bom Pimentel soberana.
Finalmente, só o Rosário,
Que do Corvo vila é,
Pequena como um armário
Ou um chinelinho de pé.
Mas não é nenhuma delas,
Nem Água de Pau, que o foi,
S. Sebastião, ou Capelas,
Da Terceira arca de boi
Como a nossa Vila Nova,
Que nem chegou a ser vila,
Tão branca na sua cova,
Tão airosa, tão tranquila.
Ah, já sei! É delas, fundo,
Que o muro alvo se perfila
Contra os corsários do mundo
Que invejam a nossa vila,
Nosso povo, na folia
De uma rocha de mar bravo,
Que o Guião da autonomia
Só por morte torna escravo.

24 de Abril de 1976

 

 

 

 

 

 

 

A vida em pedaços no mundo repartida

                    ANTÓNIO VALDEMAR


Pela sua origem e condição de açoriano, Nemésio desde o nascimento à morte, permaneceu ligado a pequenos e grandes sítios: Praia, Angra, Lisboa, Coimbra, França, Bélgica, Brasil. Há alusões contínuas celebradas em prosa e verso. Aliás, um dos seus projectos era escrever acerca das cidades da sua vida, tal como já fizera em relaçâo aos navios em que viajava, no seu destino de ilhéu e embarcadiço. Esse desejo não se concretizou, embora deixasse um levantamento sumário numa crónica das ruas de seu arruar, reabilitando um verbo arquivado no velho dicionário Morais.

"A rua principal", observou, "é o foco do estilo de viver e por aí evocá-la é dizer muito sobre as leis do comportamento humano. Ninguém consegue tornar-se cidadão sem cruzar muitas vezes os seus semelhantes na terra que escolheu ou lhe coube para morar, e todos eles tendem a afluir ao centro de cavaco e de trânsito do aglomerado: à sua espinha dorsal. (...) a calle mayor da vila era a Rua de Jesus, onde naturalmente muito passeei e aprendi - que a rua é escola do homem, e "homem da rua" o ideal da limpa cidadania."

A Praia da Vitória, onde nasceu a 19 de Dezembro de 1901 - completa-se agora um século -, só viria a ser elevada a cidade em 1982, mas isso não o impediu de a considerar como tal: "Para que a Praia da Vitória fosse realmente cidade nem lhe faltava, além do relevo urbano, o primeiro sentido daquela palavra em latim. Cabeça de capitania, era um concelho velho e uma comarca recente. Da capitania donatária ficara a glória e o ressentimento