24-3-2001

 

 

ANA TERESA PEREIRA

(1958 -          )

 

 
Ana Teresa Pereira nasceu em 1958 no Funchal, onde vive. Em 1989, publicou o seu primeiro livro, Matar a Imagem, com o qual ganhou o Prémio Caminho Policial. Em 1990 na colecção Campo da Palavra publicou o romance As Personagens.

Estreou-se na literatura infantil com A Casa da Areia e A Casa dos Penhascos, dando assim início a uma nova colecção para jovens.

Desde o seu primeiro livro tem vindo a publicar regularmente. A singularidade da sua temática e a concisão da sua escrita dão a Ana Teresa Pereira um lugar próprio na literatura portuguesa actual.  
   

 

  UMA BIOGRAFIA LITERÁRIA

 

 AINDA há autoras discretas, que não se promovem nem deixam muito que as promovam. Não caem nas malhas das estratégias de mercado a caminho do «best-seller», não aparecem em «cocktails» literários nem embarcam em «capelinhas». Ana Teresa Pereira é exemplo de tudo isto.

Imagine-se que, lá na sua ilha da Madeira, se limita a escrever, e a enviar-nos os livros para que individualmente os descubramos nas livrarias. Nasceu no Funchal, em 1958, deixou o estudo da Filosofia para se dedicar à prática das Letras, tem já uma longa e variada carreira.

Estreou-se com um romance policial - Matar a Imagem - premiado pela Caminho em 1989. Nele encontramos irrelevantes ecos biográficos. A heroína chama-se Rita e abandonou um curso de Filosofia para assumir a tarefa de escrever: «Havia nela um medo feroz da escrita, de cair no poço sem fundo que era ela própria. O medo não era muito intenso nas semanas em que escrevia o livro na mente e as cenas e as personagens se formavam e desfaziam, e nem sabia se tinha um livro ou não.» (pág.11). Rita vai casar com David, apesar das animosidades: «Sentiu naquele instante que o detestava profundamente. A ele e ao que representava: um caminho certo, traçado, paralelo aos outros.» (pág.15) - uma recusa que definirá todas as suas heroínas. Para o evoluir desta história de morte e amor, com vampiros e anjos, vai ser fundamental uma casa antiga, o mar, e o nevoeiro. Para todas as outras também.

 

Bibliografia  

A casa dos penhascos – Editorial Caminho -  1991

A Casa dos Pássaros - Editorial Caminho   1991

A Casa das Sombras - Editorial Caminho  1991

Matar a Imagem - Editorial Caminho  1989

As personagens – Editorial Caminho - 1990

A Casa da Areia - Editorial Caminho 1991

A Última História - Editorial Caminho 1991

Num Lugar Solitário - Editorial Caminho 1996

Fairy Tales – Black Sun - 1996

A Noite Mais Escura da Alma - Editorial Caminho 1997

A Casa do Nevoeiro - Editorial Caminho 1997

A Cidade Fantasma - Editorial Caminho 1993

A coisa que eu sou – Relógio d'Água – 1997

As rosas mortas – Relógio d'Água - 1998

O rosto de Deus - Relógio d'Água 1999  

Até que a morte nos separe - Relógio d'Água 2000

Se eu Morrer Antes de Acordar - Relógio d'Água  2000

O Vale dos Malditos - Black Sun 2000

A Dança dos Fantasmas -  Relógio d'Água  2001

A Linguagem dos Pássaros - Relógio d'Água 2001

O ponto de vista dos demónios - Relógio d'Água  2002

Intimações da Morte - Relógio d'Água  2002

Contos - Relógio d'Água  2003

Se nos encontrarmos de novo - Relógio d'Água  2004

O sentido da neve - Relógio d'Água  2005

O Mar de Gelo - Relógio d'Água  2005

Na obra de Ana Teresa Pereira repetem-se os cenários, e ainda os gestos, situações, sentimentos. Há obsessões que se vão misturando, se tocam e trocam refazendo-se noutras histórias, ou contando outra vez a mesma de outra maneira - como a questão do duplo, mais evidenttte em As Personagens de 1990 (Caminho). O processo denuncia-se principalmente pelos nomes - vão surgir Marisas, Dianas, Miguéis, vários David e Tom ou Charlie. Em A Última História diz-nos sobre Patrícia: «Como se fosse escrever um livro e precisasse de inspiração, de entrar num mundo oculto, desvelar a realidade por detrás da pele das coisas. Tom ensinara-lhe que para escrever era fundamental afundar-se, descer à cave. E não forçar nada, deixar o livro acontecer, formar-se por si. Começar a escrever cedo de mais poderia originar um aborto. Uma massa informe e repugnante na qual não se podia mais tocar.»(pág. 9) A metáfora da massa a moldar associada à escrita será mais um «leitmotiv», que se expande e inverte em textos posteriores.

Quanto aos nomes, não respeitam géneros. Repetem-se numa colecção juvenil editada entre 1991-92 (Caminho) que tem por base de título A Casa. São cinco: dos Pássaros, dos Penhascos, do Nevoeiro, das Sombras, da Areia. Aventuras de um pequeno grupo de cinco heróis - a invocar a famosa Enid Blyton: os irmãos David e Cristina, a prima Mónica, o amigo João, e o cão Charlie. Os miúdos desvendam mistérios por vários locais da ilha da Madeira. A mãe, Carla, escreve livros. Em A Casa do Nevoeiro parece que se apaixona por um pintor de anjos de nome Miguel.

Tom é o protagonista de A Cidade Fantasma, passado em Londres (Caminho, 1993). Um escritor de policiais que vai casar com uma Patrícia. A mulher é sempre «a mãe, a bruxa, a amante, a filha pequenina» como a psiquiatra de Num Lugar Solitário, que lá mais para a frente se descobre chamar Patrícia, ter uma irmã-duplo Micaela, e por paciente um pintor chamado Tom. Uma história com capelas, a passar pelo Paul do Mar, como A Casa do Nevoeiro.

O registo policial vai ser preterido nos livros seguintes. A Noite Escura da Alma (Caminho, 1997) é o nome do terceiro e último conto que compõe o volume. Juntam-se-lhe «O Anjo Esquecido» e «Sete Anos», a evoluírem para um romance pautado pela música das Variações Goldberg. Personagens principais - um Tom, aspirante a escritor, e Marisa, herdeiros de uma casa antiga: «A presença da casa. A casa que os rodeava como uma concha, observando cada um dos seus movimentos, ouvindo cada palavra.» (pág. 54). A casa anima-se diante da paixão de Tom por Marisa. Esta tem um(a) duplo chamado Patrícia. No conto final, uma Marisa-filha transfere a paixão pelo pai-Tom para um namorado David.

A envolver tudo em crescendo sub-reptício, o romantismo inglês e o universo pré-Rafaelita naquilo que recuperam de medieval. Mas os ambientes sinistros e atmosferas inquietantes evidenciam marcas e vestígios do gótico, às vezes transportados para território nacional e tempos modernos, contaminados pelos filmes mais recentes. Reveladas em epígrafe há as inspirações em Jorge Luis Borges, Henry James, Truman Capote, Iris Murdock, Hitchcock - este último ironicamente reinventado em «O Ponto de Vista das Gaivotas», um dos contos de Fairy Tales (Black Son Editores, 1996), reeditado junto com Ghost Stories em A Coisa que Eu Sou (Relógio d'Água, 1997). Uma experiência interessante embora menos feliz, pois aqui, as redundâncias negativizam-se podendo tornar alguns dos textos em rascunho de romances futuros. É demasiado evidente a semelhança entre a anónima heroína de «Forget-me-not» e de As Rosas Mortas. Para elas, e para Ana Teresa Pereira, escrever é «como mergulhar as mãos em argila (algo de sensual e assustador), criar formas que depois voltavam à massa amorfa, ao caos, ao início; e surgiam de novo, durante algum tempo, revelavam-se, e desapareciam...» (pág.17).

Helena Barbas                     

EXPRESSO, 20-11-1998

LINKS:

Blog de Nuno Cruz

A noite mais escura da alma

As faces do centro – Rui Magalhães – Crítica de " O Rosto de Deus"  

A égua da noite – Um mundo fantástico, de Fátima Maldonado - Crítica de "A coisa que eu sou"

A sedução do diabólico - Anabela Sardo - Crítica de "Se eu morrer antes de acordar"

Para além do possível: o poder criador da palavra em António Ramos Rosa e Ana Teresa Pereira - Rui Magalhães

 

Três Leituras de Ana Teresa Pereira, a propósito da publicação de
ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE e O VALE DOS MALDITOS.

Ana Teresa Pereira: histórias de solidão e amor
Anabela Sardo

A Irredutibilidade da Imagem
Rosário Gamboa

As Palavras de Tom
Rui Magalhães

 

Pode ver outras páginas deste site sobre a Autora aqui e aqui. Esta última contém um dossier com uma longa entrevista, extraídos do Público.

 

A ordem do caos
Um romance de amor e morte, da vingança das forças da terra e da lua

AS ROSAS MORTAS, Relógio de Água, 1998  ---   

 

NESTE último livro de Ana Teresa Pereira, o seu primeiro romance pela extensão, e não policial pelo registo, culminam todas as obsessões e estratégias até aqui exploradas por esta autora, fértil pelo modo sempre diferente como no las apresenta.

A inspiração britânica evidencia-se logo na capa - o quadro The Day Dream (1880), onde Dante Gabriel Rossetti usou como modelo Jane Burdon, depois Morris. A influência de Rossetti prolonga-se texto adentro, num poema citado: «I have been here before» («Sudden Light») a sugerir a ligação entre os amantes vinda de vidas anteriores. E começa assim o primeiro capítulo: «É a primeira vez que nasço como mulher. Há ainda em mim um rasto de bicho, um rasto de nevoeiro.» Esta é a protagonista, pintora e modelo de si própria, também escultora: «Vesti a T-shirt branca de trabalho e sem tomar duche fui para o atelier. Ao fim de algumas horas, o ser que me saiu das mãos era o mais horrendo de todos, e ao mesmo tempo o mais comovedor. Fiquei a olhá-lo durante algum tempo e depois enterrei os dedos na massa mole até desfazer a figura por completo» (pág. 67). Pela redundância da roupa e dos gestos, entende-se que seja a figura do prólogo, onde a escultura se transforma em bruxaria, ironizadas como duplicação do acto criador genésico: «A mulher procurou qualquer coisa no bolso da camisola: uma minúscula bola de pêlos de gato e duas penas de pássaro. Mergulhou as mãos na terra, tirou um pedaço de lama e misturou-a com as folhas, as flores, os pêlos, as penas. Os seus dedos ágeis amassaram por momentos aquela matéria, e começaram a modelar uma figura» (pág. 13). Esta mulher que trabalha o barro, acaba também a modelar à sua maneira os seres humanos e os seus destinos. Chama-se Marisa. Conhece Paulo, aspirante a poeta, numa exposição sua: «Ele ficou perturbado a primeira vez que o trouxe a casa. A minha casa, no centro do meu jardim murado. Os hotéis (...) aproximam-se com uma rapidez terrível, mas ela está ali, ainda sozinha, as árvores protegem a sua intimidade. É enorme e parece-se com uma gravura antiga, com manchas do tempo, com a beleza um pouco triste do tempo e do abandono./ Um velho castelo» (pág. 26). Um castelo assombrado para uma princesa-bruxa. Paulo começa a ser arrastado para o mundo de Marisa, a mulher-elfo que se pinta envolta em nevoeiro, monstros e asas de pássaros. «Os pássaros dormiam nos seus ninhos e os monstros no fundo das cavernas, no ventre da terra. Tudo estava igual. Mas ele transformava-se, lentamente... e tinha medo, tanto medo./ E não me acreditava quando lhe dizia que devia deixar a metamorfose ir até ao fim» (pág.63). A fé de Paulo não lhe dá forças para vencer o medo nem os monstros, e recorre à ciência. Entrega-se nas mãos de Miguel, um psiquiatra com nome de Arcanjo. Mas Miguel não reconhece a diferença entre «a doença humana e o toque dos deuses» e, apesar do seu nome, não sabe falar nem reconhecer a linguagem dos anjos e dos pássaros. Marisa define-o: «o 'sujeito suposto saber', o 'médico da alma', cheio de segurança, pronto a perceber o amor e o ódio, a explicar o suicídio, a desfazer de uma palhetada a existência de Deus ou o medo da morte, o 'sujeito suposto saber' que tanto pode receitar um ansiolítico como electrochoques» (pág. 201). Por oposição, parte deste romance ecoa e inverte a intriga de Num Lugar solitário - em que Ana Teresa se debruça sobre a relação médica-paciente durante e depois da análise. E também aqui ataca a situação de «transfer», embora sendo outra a tónica, e mais elaborado o modo.

Miguel é casado com Helena, formando ambos o segundo par da história. Um casal burguês exemplar, com vida, filhos e uma casa exemplares. Solar. Helena: «não sonhava com répteis e serpentes, e se sonhava esquecia os sonhos, aquela mulher não tinha nada a puxá-la para baixo, para o caos, vivia à superfície, vivia na luz, na segurança» (pág. 91). E também eles vão ser contaminados pelo mundo lunar de Marisa.

O romance vai evoluindo a explorar - nunca de forma primária - a luta entre o solar e o lunar, encenando os antagonismos entre duas ordens de valor igual e sinal diferente; a impossível pretensão de o primeiro entender o segundo com regras e normas suas; a força persistente do segundo em exigir o cumprimento das suas leis inexoráveis. Mesmo a Marisa, que no final invoca de novo a tradição inglesa, identificando-se agora com a figura feminina da «Lady of Shalott» de Tennyson - a mulher encerrada na torre do seu castelo, que só podia olhar o mundo por intermédio de um espelho. Nele vê Lancelot, por quem se apaixona. Vira-se. O espelho quebra-se, e cai-lhe em cima a maldição que a prendia, e que ela própria ignorava qual era. E por aqui, o prólogo revela-se também como epílogo.

Dedicado aos gatos, o livro apresenta-se dividido em quatro partes. Cada uma delas vai buscar o nome a uma das cartas do Tarot: o Louco, a Grande Sacerdotisa, os Amantes e a Lua. Um outro espelho. Ou a ordem possível ao caos.

HELENA BARBAS                                                     

EXPRESSO – 15-8-1998

 

 

O desejo não resulta

 

A literatura de quiosque paredes-meias com a erudição

 

Fátima Maldonado                      

O VALE DOS MALDITOS

 de Ana Teresa Pereira   

(Black Sun Editores, 2000, 76 págs.)  

Ana Teresa Pereira é um caso bem interessante na literatura portuguesa, que vive de enfatizações, equívocos e tragédias e cresce quase por inteiro à sombra das instituições. Com ela passa-se tudo num plano aparentemente mais minimalista. Mas o universo literário em que se desloca é de reflexos que se interpenetram e desdobram e repartem até se estilhaçar o estanho que os conteve. Deste modo tudo se adensa, muito mais complexo do que ao primeiro relance poderia supor alguém desprevenido.    

A sua estrada é recta pelo menos desde o primeiro livro que dela li, Matar a Imagem, que em 1989 ganhou o Prémio Caminho de literatura policial. Já lá estava tudo: a erudição (acaba por não irritar e até se torna bem compensatória nesta casa do mundo onde à degradação comum se chama agora divertimento), a neurose elegantíssima, a obsessão vampírica, a fixação no duplo, o snobismo wildiano. E ainda o interesse pela cultura popular, que não é incompatível com o resto, antes desejável num território tão contaminado pelas várias burocracias da escrita. «E anos mais tarde lera o mais estranho dos policiais (talvez porque não era um policial): Married a Dead Man, um jogo no qual os dois jogadores perdem. Irish, infeliz e alcoólico, fechado no seu quarto durante anos, Irish que queria escrever como Fitzgerald. Não fora um Fitzgerald mas criara um universo que não se parecia com coisa nenhuma», conta em Matar a Imagem.

Examinar o percurso desta escritora de trás para diante, começando pelo policial e acabando no que julgo ser o seu último livro, O Vale dos Malditos, Black Son Editores, surpreende. Aconteceu-me já estar um pouco saturada dos livros em que ela fazia suceder num alucinante projectar a casa eterna habitada por seres maléficos, paixões deletérias, sangue e perfume de rosas e sempre a mesma narcisíssima e anoréxica criatura. Mas quando, de repente, surge este «western» como deve ser - capa a rigor de Paulo Scavullo -, com uma citação de William Blake a abrir: (...) «Some are Born to sweet delight,/ Some are Born to Endless Night», é uma delícia. Porque a história é boa, tão boa que lembra ao longe Duelo ao Sol. Mas em O Vale dos Malditos o casal proscrito ficará junto para sempre, de certeza para sua infelicidade perpétua. Felizmente a boa rapariga morre, evitando assim que Tom Stuart, o herói, se estabeleça e integre o rebanho. E há também um bandido que não é o que se esperava e um clima de híbrida ascendência - Tom Stuart é meio índio, como convém aos bons vilões e incapaz de afectos como também é costume.

O mais interessante de tudo isto prova a capacidade de Ana Teresa Pereira renovar géneros inoculando-lhe sangue fresco. O que é entre outras uma das características que a literatura exige para não desmaiar. E nesta pretensa obra revivalista, ela consegue, sem quebrar a estrutura clássica do livro de «cowboys» que se comprava por 25 tostões nos antigos quiosques, pôr o herói/vilão a ler William Blake, invertendo-lhe o destino de rude macho e instilar já perto do fim um clima donde os corvos de Edgar Poe não estão ausentes. Ou seja, obrigar o romance popular a conviver paredes-meias com os suportes da literatura fantástica sem quebras de ritmo ou dissonância. Grande lição para os paladinos da literatura extática. E quem defende que a cultura popular é incompatível com a erudição deveria limpar-se a este guardanapo, para acabar num registo vulgar de Lineu, como se diz nos relatórios das autópsias.  

EXPRESSO, 20-1-2001

 

 

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A CEGUEIRA DOS SERES APAIXONADOS

 

A novela de Ana Teresa Pereira, “Até que a morte nos separe”, tem o sonho e a memória cinéfila dos amores malditos

Até que a morte nos separe, novela de Ana Teresa Pereira, está para a literatura portuguesa como a doçaria para a culinária: à primeira vista, trata-se de um tipo de alimento pouco substancial; depois, quando se prova, descobre-se que teria mais calorias do que seria previsível. E não é apenas o valor alimentar que se evidencia na leitura. As sobremesas parecem simples de fazer, mas, como qualquer gastrónomo sabe, exigem verdadeiro talento.

A novela tem o ingrediente da simplicidade, mas daquela que é mais difícil de conseguir. O ambiente é do cinema negro americano, a chamada “Série B”, mas também o dos policiais de Raymond Chandler e dos diálogos poderosos de filmes como Johnny Guitar, Vitória Anarga, Cega Paixão, Ter ou não Ter, Difamação, etc. São estes os territórios em que se movem as criaturas etéreas da história, imagens a preto e branco que sustentam um livro onírico, em que o leitor é inundado de fortes e simples sugestões poéticas.

Tom Stuart, Tenente do Departamento de Homicídios, conhece uma mulher num bar e enamora-se dela: “Pareces um anjo. Um anjo negro”, diz Tom, que imagino como Robert Ryan, em On Dangerous Ground (Cega Paixão), o filme de Nicholas Ray (que a autora refere explicitamente no texto); ela, Patrícia (Ida Lupino?), também possui um segredo. Depois, há a filha cega do tenente e o mistério obscuro que envolve todas as figuras.

Enfim, o dispositivo de história policial entrelaça-se com a memória cinéfila. Esta novela melancólica encena personagens perdidas no labirinto do amor e no medo da morte dessa paixão cega. A imaginação da autora é visual, recheada de referências culturais a livros, pinturas e filmes. O excesso desses pormenores é, aliás, o defeito visível da obra. A repetição de personagens a ler livros ou a recordar películas, citando passagens dos mesmos, lembra um pouco a interferência do árbitro num bom jogo de futebol. Até que a morte nos separe é um texto suficientemente culto e sensível para dispensar metade destas demonstrações de erudição.

O defeito (que não passa, afinal, de uma impressão muito subjectiva deste leitor) torna-se quase irrelevante numa novela tão bem escrita. Os textos do prólogo e do epílogo são duas pequenas maravilhas, de grande beleza, quando se lêem em voz alta: “Agora sei que o amor existe, conheço o rosto dele, os seus olhos, o seu corpo, sei que me ama. E tenho medo dele, como sei que ele tem medo de mim, porque somos o lado negro um do outro, o rosto da morte um do outro”. Este é apenas um exemplo que mostra o cuidado da prosa. E muitas outras passagens podiam ter sido escolhidas.

Os diálogos são irrepreensíveis e recheados de frases conseguidas; as personagens possuem complexidade e espessura; a história flui e o texto lê-se sem esforço, apesar da profundidade das ideias. Enfim, o livro de Ana Teresa Pereira brilha de fantasia, num clima de fatalidade e sonho.

LUIS NAVES, em Diário de Notícias, 20-1-2001

A CASA DOS ESPELHOS

   

A OBRA DE ANA TERESA PEREIRA TEM VINDO A AFIRMAR-SE DESDE 1989, DATA DA PUBLICAÇÃO DO SEU PRIMEIRO LIVRO COMO UMA DAS MAIS INTERESSANTES E MULTIFACETADAS DO ACTUAL PANORAMA LITERÁRIO PORTUGUÊS. UTILIZANDO A MATRIZ POLICIAL, DO FANTÁSTICO, DO LIVRO PARA CRIANÇAS, ATÉ AO MAIS RECENTE, COM UMA INCURSÃO AO UNIVERSO DOS WESTERNS, A AUTORA MADEIRENSE CONQUISTOU UM PÚBLICO FIEL E SOBRETUDO UM TERRITÓRIO MUITO PRÓPRIO, COM TEMAS FORTES MUITO SEUS, E UMA CAPACIDADE INÉDITA DE REVITALIZAR GÉNEROS OU SUB-GÉNEROS. NO ENTANTO, ESSA DIVERSIDADE DE ENQUADRAMENTO NÃO RETIROU UMA LINHA AO QUE É O VEIO DE FUNDO DA SUA AVENTURA COMO ESCRITORA, “ PORQUE TUDO NO UNIVERSO ESTAVA ESCRITO, OU ANTES, TUDO ERA UMA ESCRITA”, OU TALVEZ PORQUE “ALGURES NO UNIVERSO A SUA VIDA ESTAVA ESCRITA, E TALVEZ FOSSE ASSIM UM DESENHO PARECIDO COM UMA CONSTELAÇÃO”.

 
   

      O jogo da escrita, o prazer dos reflexos para sempre sublimados, o permanente reenviar para uma referência literária ou cinematográfica constituem-se nela como materiais de feitura de um mundo aparentemente encerrado em alguns tópicos reconhecíveis, mas que se desdobram constantemente como imagens de imagens, num número infinito de variações que só duplo espelho permite e afirma. Uma casa, um casal, uma situação nunca inteiramente clara, um sonho, um mistério, um desejo fundo e inatingível, uma reminiscência, tudo se conjuga para dotar os seus livros de uma atmosfera única, onde os ecos de histórias fantásticas, sombras animadas pelo luar cobram vida e se transformam numa paisagem sempre a mesma, mas sempre nova. É como se um olho se movesse procurando novos ângulos, ou uma câmara captando novos contornos adivinhados, perseguidos, temidos.

      “Aquilo não era felicidade, era outra coisa, sentia-se plena, e vazia, era o mesmo, sentia que o seu corpo estava dentro do ovo, inseparável, de tudo o resto, e o seu corpo era também aquilo que nela não era corpo. E tudo o que ela era não tinha grande consistência, esbatia-se no resto, o mundo passava por ela como se não estivesse ali, como um sopro... e não havia distância porque não havia separação, só a unidade, a presença absoluta”. A citação é longa mas vale todo um programa, uma demanda, um objectivo que se antevê mas que dificilmente se alcança, porque a matéria humana lhe opõe resistência.

      Essa resistência tem a consistência dos sonhos e do luar, por isso o que esta escrita vê no mundo é apenas um indício do que se procura e nunca o derradeiro traço que se compõe, para ser revelado noutra ocasião, quando a constelação assim o permitir. Universo onírico e fantasmático, o mundo de Ana Teresa Pereira faz despertar as páginas que escreve como se já estivessem escritas antes da inevitável solarização, é um mundo do que há-de ser porque tem de ser, um mundo que está à distância de um reflexo. E porque no mundo dos reflexos tudo é possível, eis como o engano nos aproxima da tal presença absoluta que nos espera e nos chama.

 

      O Vale dos Malditos, Black Sun Editores, 2000

      Se eu Morrer antes de Acordar, Relógio d’Água, 2000

      Até que a Morte nos Separe, Relógio d’Água, 2000

 

José Guardado Moreira, em

      LER, Livros e Leitores n.º 50, Primavera 2001