24-3-2001
ANA TERESA PEREIRA
(1958 - )
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UMA BIOGRAFIA LITERÁRIA
AINDA há autoras discretas, que não se promovem nem deixam muito que as promovam. Não caem nas malhas das estratégias de mercado a caminho do «best-seller», não aparecem em «cocktails» literários nem embarcam em «capelinhas». Ana Teresa Pereira é exemplo de tudo isto. Imagine-se
que, lá na sua ilha da Madeira, se limita a escrever, e a enviar-nos os
livros para que individualmente os descubramos nas livrarias. Nasceu no
Funchal, em 1958, deixou o estudo da Filosofia para se dedicar à prática
das Letras, tem já uma longa e variada carreira. Estreou-se
com um romance policial - Matar a Imagem - premiado pela Caminho em
1989. Nele encontramos irrelevantes ecos biográficos. A heroína chama-se
Rita e abandonou um curso de Filosofia para assumir a tarefa de escrever: «Havia
nela um medo feroz da escrita, de cair no poço sem fundo que era ela própria.
O medo não era muito intenso nas semanas em que escrevia o livro na mente
e as cenas e as personagens se formavam e desfaziam, e nem sabia se tinha
um livro ou não.» (pág.11). Rita vai casar com David, apesar
das animosidades: «Sentiu naquele instante que o detestava
profundamente. A ele e ao que representava: um caminho certo, traçado,
paralelo aos outros.» (pág.15) - uma recusa que definirá todas as
suas heroínas. Para o evoluir desta história de morte e amor, com
vampiros e anjos, vai ser fundamental uma casa antiga, o mar, e o
nevoeiro. Para todas as outras também. |
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Na
obra de Ana Teresa Pereira repetem-se os cenários, e ainda os gestos, situações,
sentimentos. Há obsessões que se vão misturando, se tocam e trocam
refazendo-se noutras histórias, ou contando outra vez a mesma de outra maneira
- como a questão do duplo, mais evidenttte em As Personagens de 1990
(Caminho). O processo denuncia-se principalmente pelos nomes - vão surgir
Marisas, Dianas, Miguéis, vários David e Tom ou Charlie. Em A Última História
diz-nos sobre Patrícia: «Como se fosse escrever um livro e precisasse de
inspiração, de entrar num mundo oculto, desvelar a realidade por detrás da
pele das coisas. Tom ensinara-lhe que para escrever era fundamental afundar-se,
descer à cave. E não forçar nada, deixar o livro acontecer, formar-se por si.
Começar a escrever cedo de mais poderia originar um aborto. Uma massa informe e
repugnante na qual não se podia mais tocar.»(pág. 9) A metáfora da massa
a moldar associada à escrita será mais um «leitmotiv», que se expande e
inverte em textos posteriores.
Quanto
aos nomes, não respeitam géneros. Repetem-se numa colecção juvenil editada
entre 1991-92 (Caminho) que tem por base de título A Casa. São cinco: dos
Pássaros, dos Penhascos, do Nevoeiro, das Sombras, da Areia. Aventuras de
um pequeno grupo de cinco heróis - a invocar a famosa Enid Blyton: os irmãos
David e Cristina, a prima Mónica, o amigo João, e o cão Charlie. Os miúdos
desvendam mistérios por vários locais da ilha da Madeira. A mãe, Carla,
escreve livros. Em A Casa do Nevoeiro parece que se apaixona por um
pintor de anjos de nome Miguel.
Tom
é o protagonista de A Cidade Fantasma, passado em Londres (Caminho,
1993). Um escritor de policiais que vai casar com uma Patrícia. A mulher é
sempre «a mãe, a bruxa, a amante, a filha pequenina» como a psiquiatra
de Num Lugar Solitário, que lá mais para a frente se descobre chamar
Patrícia, ter uma irmã-duplo Micaela, e por paciente um pintor chamado Tom.
Uma história com capelas, a passar pelo Paul do Mar, como A Casa do Nevoeiro.
O
registo policial vai ser preterido nos livros seguintes. A Noite Escura da
Alma (Caminho, 1997) é o nome do terceiro e último conto que compõe o
volume. Juntam-se-lhe «O Anjo Esquecido» e «Sete Anos», a evoluírem para um
romance pautado pela música das Variações Goldberg. Personagens
principais - um Tom, aspirante a escritor, e Marisa, herdeiros de uma casa
antiga: «A presença da casa. A casa que os rodeava como uma concha,
observando cada um dos seus movimentos, ouvindo cada palavra.» (pág. 54).
A casa anima-se diante da paixão de Tom por Marisa. Esta tem um(a) duplo
chamado Patrícia. No conto final, uma Marisa-filha transfere a paixão pelo
pai-Tom para um namorado David.
A
envolver tudo em crescendo sub-reptício, o romantismo inglês e o universo pré-Rafaelita
naquilo que recuperam de medieval. Mas os ambientes sinistros e atmosferas
inquietantes evidenciam marcas e vestígios do gótico, às vezes transportados
para território nacional e tempos modernos, contaminados pelos filmes mais
recentes. Reveladas em epígrafe há as inspirações em Jorge Luis Borges,
Henry James, Truman Capote, Iris Murdock, Hitchcock - este último ironicamente
reinventado em «O Ponto de Vista das Gaivotas», um dos contos de Fairy
Tales (Black Son Editores, 1996), reeditado junto com Ghost Stories
em A Coisa que Eu Sou (Relógio d'Água, 1997). Uma experiência
interessante embora menos feliz, pois aqui, as redundâncias negativizam-se
podendo tornar alguns dos textos em rascunho de romances futuros. É demasiado
evidente a semelhança entre a anónima heroína de «Forget-me-not» e de As
Rosas Mortas. Para elas, e para Ana Teresa Pereira, escrever é «como
mergulhar as mãos em argila (algo de sensual e assustador), criar formas que
depois voltavam à massa amorfa, ao caos, ao início; e surgiam de novo, durante
algum tempo, revelavam-se, e desapareciam...» (pág.17).
Helena Barbas
EXPRESSO, 20-11-1998
Três
Leituras de Ana Teresa Pereira, a propósito da publicação de
ATÉ QUE A MORTE NOS
SEPARE e O
VALE DOS MALDITOS.
Ana
Teresa Pereira: histórias de solidão e amor
Anabela Sardo
A
Irredutibilidade da Imagem
Rosário Gamboa
As
Palavras de Tom
Rui Magalhães
Pode ver outras páginas deste site sobre a Autora aqui e aqui. Esta última contém um dossier com uma longa entrevista, extraídos do Público.
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A
ordem do caos AS ROSAS MORTAS, Relógio de Água, 1998 --- NESTE último livro de Ana Teresa Pereira, o seu primeiro romance pela extensão, e não policial pelo registo, culminam todas as obsessões e estratégias até aqui exploradas por esta autora, fértil pelo modo sempre diferente como no las apresenta.
A
inspiração britânica evidencia-se logo na capa - o quadro The Day
Dream (1880), onde Dante Gabriel Rossetti usou como modelo Jane Burdon,
depois Morris. A influência de Rossetti prolonga-se texto adentro, num
poema citado: «I have been here before» («Sudden Light») a
sugerir a ligação entre os amantes vinda de vidas anteriores. E começa
assim o primeiro capítulo: «É a primeira vez que nasço como mulher.
Há ainda em mim um rasto de bicho, um rasto de nevoeiro.» Esta é a
protagonista, pintora e modelo de si própria, também escultora: «Vesti
a T-shirt branca de trabalho e sem tomar duche fui para o atelier. Ao fim
de algumas horas, o ser que me saiu das mãos era o mais horrendo de
todos, e ao mesmo tempo o mais comovedor. Fiquei a olhá-lo durante algum
tempo e depois enterrei os dedos na massa mole até desfazer a figura por
completo» (pág. 67). Pela redundância da roupa e dos gestos,
entende-se que seja a figura do prólogo, onde a escultura se transforma
em bruxaria, ironizadas como duplicação do acto criador genésico: «A
mulher procurou qualquer coisa no bolso da camisola: uma minúscula bola
de pêlos de gato e duas penas de pássaro. Mergulhou as mãos na terra,
tirou um pedaço de lama e misturou-a com as folhas, as flores, os pêlos,
as penas. Os seus dedos ágeis amassaram por momentos aquela matéria, e
começaram a modelar uma figura» (pág. 13). Esta mulher que trabalha
o barro, acaba também a modelar à sua maneira os seres humanos e os seus
destinos. Chama-se Marisa. Conhece Paulo, aspirante a poeta, numa exposição
sua: «Ele ficou perturbado a primeira vez que o trouxe a casa. A minha
casa, no centro do meu jardim murado. Os hotéis (...) aproximam-se com
uma rapidez terrível, mas ela está ali, ainda sozinha, as árvores
protegem a sua intimidade. É enorme e parece-se com uma gravura antiga,
com manchas do tempo, com a beleza um pouco triste do tempo e do
abandono./ Um velho castelo» (pág. 26). Um castelo assombrado para
uma princesa-bruxa. Paulo começa a ser arrastado para o mundo de Marisa,
a mulher-elfo que se pinta envolta em nevoeiro, monstros e asas de pássaros.
«Os pássaros dormiam nos seus ninhos e os monstros no fundo das
cavernas, no ventre da terra. Tudo estava igual. Mas ele transformava-se,
lentamente... e tinha medo, tanto medo./ E não me acreditava quando lhe
dizia que devia deixar a metamorfose ir até ao fim» (pág.63). A fé
de Paulo não lhe dá forças para vencer o medo nem os monstros, e
recorre à ciência. Entrega-se nas mãos de Miguel, um psiquiatra com
nome de Arcanjo. Mas Miguel não reconhece a diferença entre «a doença
humana e o toque dos deuses» e, apesar do seu nome, não sabe falar
nem reconhecer a linguagem dos anjos e dos pássaros. Marisa define-o: «o
'sujeito suposto saber', o 'médico da alma', cheio de segurança, pronto
a perceber o amor e o ódio, a explicar o suicídio, a desfazer de uma
palhetada a existência de Deus ou o medo da morte, o 'sujeito suposto
saber' que tanto pode receitar um ansiolítico como electrochoques»
(pág. 201). Por oposição, parte deste romance ecoa e inverte a intriga
de Num Lugar solitário - em que Ana Teresa se debruça sobre a
relação médica-paciente durante e depois da análise. E também aqui
ataca a situação de «transfer», embora sendo outra a tónica, e mais
elaborado o modo.
Miguel
é casado com Helena, formando ambos o segundo par da história. Um casal
burguês exemplar, com vida, filhos e uma casa exemplares. Solar. Helena: «não
sonhava com répteis e serpentes, e se sonhava esquecia os sonhos, aquela
mulher não tinha nada a puxá-la para baixo, para o caos, vivia à superfície,
vivia na luz, na segurança» (pág. 91). E também eles vão ser
contaminados pelo mundo lunar de Marisa.
O
romance vai evoluindo a explorar - nunca de forma primária - a luta entre
o solar e o lunar, encenando os antagonismos entre duas ordens de valor
igual e sinal diferente; a impossível pretensão de o primeiro entender o
segundo com regras e normas suas; a força persistente do segundo em
exigir o cumprimento das suas leis inexoráveis. Mesmo a Marisa, que no
final invoca de novo a tradição inglesa, identificando-se agora com a
figura feminina da «Lady of Shalott» de Tennyson - a mulher encerrada na
torre do seu castelo, que só podia olhar o mundo por intermédio de um
espelho. Nele vê Lancelot, por quem se apaixona. Vira-se. O espelho
quebra-se, e cai-lhe em cima a maldição que a prendia, e que ela própria
ignorava qual era. E por aqui, o prólogo revela-se também como epílogo.
Dedicado
aos gatos, o livro apresenta-se dividido em quatro partes. Cada uma delas
vai buscar o nome a uma das cartas do Tarot: o Louco, a Grande
Sacerdotisa, os Amantes e a Lua. Um outro espelho. Ou a ordem possível ao
caos. HELENA BARBAS EXPRESSO – 15-8-1998 |
O desejo não resulta
A
literatura de quiosque paredes-meias com a erudição
Fátima
Maldonado
O
VALE DOS MALDITOS
de Ana Teresa Pereira
(Black
Sun Editores, 2000, 76 págs.)
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Ana
Teresa Pereira é um caso bem interessante na literatura portuguesa, que vive de
enfatizações, equívocos e tragédias e cresce quase por inteiro à sombra das
instituições. Com ela passa-se tudo num plano aparentemente mais minimalista.
Mas o universo literário em que se desloca é de reflexos que se interpenetram
e desdobram e repartem até se estilhaçar o estanho que os conteve.
Deste modo
tudo se adensa, muito mais complexo do que ao primeiro relance poderia supor
alguém desprevenido. |
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A
sua estrada é recta pelo menos desde o primeiro livro que dela li, Matar a
Imagem, que em 1989 ganhou o Prémio Caminho de literatura policial. Já lá
estava tudo: a erudição (acaba por não irritar e até se torna bem compensatória
nesta casa do mundo onde à degradação comum se chama agora divertimento), a
neurose elegantíssima, a obsessão vampírica, a fixação no duplo, o snobismo
wildiano. E ainda o interesse pela cultura popular, que não é incompatível
com o resto, antes desejável num território tão contaminado pelas várias
burocracias da escrita. «E anos mais tarde lera o mais estranho dos policiais
(talvez porque não era um policial): Married a Dead Man, um jogo no qual os
dois jogadores perdem. Irish, infeliz e alcoólico, fechado no seu quarto
durante anos, Irish que queria escrever como Fitzgerald. Não fora um Fitzgerald
mas criara um universo que não se parecia com coisa nenhuma», conta em Matar a
Imagem.
Examinar
o percurso desta escritora de trás para diante, começando pelo policial e
acabando no que julgo ser o seu último livro, O Vale dos Malditos, Black Son
Editores, surpreende. Aconteceu-me já estar um pouco saturada dos livros em que
ela fazia suceder num alucinante projectar a casa eterna habitada por seres maléficos,
paixões deletérias, sangue e perfume de rosas e sempre a mesma narcisíssima e
anoréxica criatura. Mas quando, de repente, surge este «western» como deve
ser - capa a rigor de Paulo Scavullo -, com uma citação de William Blake a
abrir: (...) «Some are Born to sweet delight,/ Some are Born to Endless
Night», é uma delícia. Porque a
história é boa, tão boa que lembra ao longe Duelo ao Sol. Mas em O Vale dos
Malditos o casal proscrito ficará junto para sempre, de certeza para sua
infelicidade perpétua. Felizmente a boa rapariga morre, evitando assim que Tom
Stuart, o herói, se estabeleça e integre o rebanho. E há também um bandido
que não é o que se esperava e um clima de híbrida ascendência - Tom Stuart
é meio índio, como convém aos bons vilões e incapaz de afectos como também
é costume.
O
mais interessante de tudo isto prova a capacidade de Ana Teresa Pereira renovar
géneros inoculando-lhe sangue fresco. O que é entre outras uma das características
que a literatura exige para não desmaiar. E nesta pretensa obra revivalista,
ela consegue, sem quebrar a estrutura clássica do livro de «cowboys» que se
comprava por 25 tostões nos antigos quiosques, pôr o herói/vilão a ler
William Blake, invertendo-lhe o destino de rude macho e instilar já perto do
fim um clima donde os corvos de Edgar Poe não estão ausentes. Ou seja, obrigar
o romance popular a conviver paredes-meias com os suportes da literatura fantástica
sem quebras de ritmo ou dissonância. Grande lição para os paladinos da
literatura extática. E quem defende que a cultura popular é incompatível com
a erudição deveria limpar-se a este guardanapo, para acabar num registo vulgar
de Lineu, como se diz nos relatórios das autópsias.
EXPRESSO, 20-1-2001
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A CEGUEIRA DOS SERES APAIXONADOS
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A novela de Ana Teresa Pereira, “Até que a morte nos separe”, tem o sonho e a memória cinéfila dos amores malditos Até que a morte nos separe, novela de Ana Teresa Pereira, está para a literatura portuguesa como a doçaria para a culinária: à primeira vista, trata-se de um tipo de alimento pouco substancial; depois, quando se prova, descobre-se que teria mais calorias do que seria previsível. E não é apenas o valor alimentar que se evidencia na leitura. As sobremesas parecem simples de fazer, mas, como qualquer gastrónomo sabe, exigem verdadeiro talento. |
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A novela tem o ingrediente da simplicidade, mas daquela que é mais difícil de conseguir. O ambiente é do cinema negro americano, a chamada “Série B”, mas também o dos policiais de Raymond Chandler e dos diálogos poderosos de filmes como Johnny Guitar, Vitória Anarga, Cega Paixão, Ter ou não Ter, Difamação, etc. São estes os territórios em que se movem as criaturas etéreas da história, imagens a preto e branco que sustentam um livro onírico, em que o leitor é inundado de fortes e simples sugestões poéticas.
Tom Stuart, Tenente do Departamento de Homicídios, conhece uma mulher num bar e enamora-se dela: “Pareces um anjo. Um anjo negro”, diz Tom, que imagino como Robert Ryan, em On Dangerous Ground (Cega Paixão), o filme de Nicholas Ray (que a autora refere explicitamente no texto); ela, Patrícia (Ida Lupino?), também possui um segredo. Depois, há a filha cega do tenente e o mistério obscuro que envolve todas as figuras.
Enfim, o dispositivo de história policial entrelaça-se com a memória cinéfila. Esta novela melancólica encena personagens perdidas no labirinto do amor e no medo da morte dessa paixão cega. A imaginação da autora é visual, recheada de referências culturais a livros, pinturas e filmes. O excesso desses pormenores é, aliás, o defeito visível da obra. A repetição de personagens a ler livros ou a recordar películas, citando passagens dos mesmos, lembra um pouco a interferência do árbitro num bom jogo de futebol. Até que a morte nos separe é um texto suficientemente culto e sensível para dispensar metade destas demonstrações de erudição.
O defeito (que não passa, afinal, de uma impressão muito subjectiva deste leitor) torna-se quase irrelevante numa novela tão bem escrita. Os textos do prólogo e do epílogo são duas pequenas maravilhas, de grande beleza, quando se lêem em voz alta: “Agora sei que o amor existe, conheço o rosto dele, os seus olhos, o seu corpo, sei que me ama. E tenho medo dele, como sei que ele tem medo de mim, porque somos o lado negro um do outro, o rosto da morte um do outro”. Este é apenas um exemplo que mostra o cuidado da prosa. E muitas outras passagens podiam ter sido escolhidas.
Os diálogos são irrepreensíveis e recheados de frases conseguidas; as personagens possuem complexidade e espessura; a história flui e o texto lê-se sem esforço, apesar da profundidade das ideias. Enfim, o livro de Ana Teresa Pereira brilha de fantasia, num clima de fatalidade e sonho.
LUIS NAVES, em Diário de Notícias, 20-1-2001
A CASA DOS ESPELHOS
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