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ANA TERESA PEREIRA

EXPRESSO n.º 1730

Actual, de 23 de Dezembro de 2005

Os gestos do amor

Mais uma belíssima História por Ana Teresa Pereira

Texto de Helena Barbas

O Mar de Gelo, de Ana Teresa Pereira, Relógio de Água, 2005, 138 págs., € 14

Ana Teresa Pereira reincide no tema do amor eterno: "Em todos os livros há duas pessoas tão ligadas como se se conhecessem há muito tempo" (pág. 49). De novo o que interessa não é tanto a intriga em si, mas o modo como é contada.

Trata-se de "uma história de amor entre três pessoas", que podia cair no banal triãngulo amoroso, ou no ainda mais banal adultério, mas não. Tudo se passa entre um casal de actores – Katie e Clive – que se conhecem desde a infância; foram o rapaz/a rapariga da casa do lado. Clive escreve peças de teatro que Katie vai protagonizando e em que ele próprio também entra. E depois há Tom, um escritor de sucesso, ex-professor em Oxford. Todos tentam ter êxito nas suas artes. Subordinam-lhes as suas vidas, e não é possível distinguir onde começam umas e acabam as outras. "Era bom para o trabalho. Observar os outros. O rosto de uma pessoa quando pensa que está sozinha. Quando pensa que não está a ser olhada. Um gesto, uma expressão, um olhar, podiam ser reproduzidos mais tarde, num palco, e ganhar uma importância que nunca haviam tido. Era um pouco assim que compunha as suas personagens, pedaços de si própria, pedaços dos outros. E também era interessante ver a reacção de uma pessoa quando percebia que estava a ser seguida todas as noites" (pág. 43). Mas este processo pode ser perigoso: "Katie, que se transformava em tantas mulheres, Miranda, Stella, Hilde, Cecily, por vezes tinha medo de não ser ninguém. De ter escolhido aquela profissão para fugir ao vazio, à falta de identidade. Talvez com um escritor acontecesse o mesmo" (pág. 59). O entendimento entre as personagens assim o insinua. Katie procura seduzir Tom, com quem já tivera um caso quando era estudante, e que não se recorda dela. Vai então segui-lo pelas ruas escuras de Londres, pelas livrarias e jardins, suscitando encontros de olhares fortuitos que foram premeditados. Encena os gestos do relacionamento amoroso: "Eram actores profissionais e a paixão tornava-se fácil de representar. O mundo é um palco e eles tinham consciência disso. No fundo, muito no fundo, sentiam-se superiores ás outras pessoas. Porque eles sabiam que era só uma peça (pág. 13). Todas as hierarquias são invertidas, subvertidas, subordinadas à verdade de cada par de amantes: "Katie bebeu o chocolate lentamente. Não, nenhum deles criava algo para ficar. Estavam de passagem e não deixavam marcas. A única forma de serem eternos ( pág.27). Um estranho e paradoxal elogio do efémero.

JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias

Ano XXV n.º 921, de 18 a 31 de Janeiro de 2006

 

Ana Teresa Pereira, O MAR DE GELO, Relógio d’Água, 127 pp.

 

“Como muitos actores ingleses, Kate Dylan era uma becomer: transformava-se nas personagens que tinha de interpretar. Do mesmo modo que em menina se identificava com as personagens dos seus livros de aventuras, e depois com Lizzy Bennet e Emma Woodhouse; mais tarde com as mulheres de Henrik Ibsen e Tennessee Williams”. Assim começa o novo livro de Ana Teresa Pereira, uma das vozes mais singulares da ficção contemporânea, recentemente distinguida com o prémio literário PEN Clube Português. Fazendo eco de O Mar, O Mar, de Iris Murdoch, (também editado pela Relógio D’Água) e de um quadro de Caspar David Friedrich (reproduzido na capa), O Mar de Gelo é uma cintilante novela, fortemente marcada pelas recorrências literárias da autora, como citações literárias, pictóricas, musicais e teatrais. Neste caso, Kate e Clive, dois jovens actores desempregados, unidos por um amor inquestionável, têm pela frente um Inverno impiedoso. Com poucos recursos, a solução para o superar talvez esteja no escritor Tom Stewart…

 

                                                 

PÚBLICO,  Mil Folhas, 21 de Janeiro de 2006

 

Eduardo Prado Coelho

Tendo começado por fazer narrativas de índole policial, Ana Teresa Pereira, foi criando um espaço, um tipo de casas, alguns lugares públicos, paisagens invernosas, uma forma de diálogo, um modo de se alimentarem acentuadamente frugal, e quase sempre as mesmas personagens. 

Onde tu estás é sempre o fim do mundo

Há escritores que deambulam pelo mundo à procura de pontos de apoio. Outros escolhem uma região polar – e instalam-se nela: vivem do gelo e do deserto, do desamparo e da luz que se inclina sobre os rostos fatigados. Exploram até à exaustão a terra que inventaram e aí implantaram objectos, corpos, desenhos marítimos, bolsas de vento. Não será por acaso que a capa da mais recente ficção de Ana Teresa Pereira reproduz um pormenor dum quadro de Caspar David Friedrich intitulado “O Mar de Ciclo’’: brancura fracturada em lajes que restaram de uma catástrofe antiga, formas pontiagudas que perfuram o céu, infinita distância do vazio.

Ana Teresa Pereira pertence a este segundo grupo. Tendo começado por fazer narrativas de índole policial (Sherlock Holmes ou William Irish são referências insistentes), Ana Teresa foi criando um espaço, um tipo de casas, alguns lugares públicos (velhas livrarias, teatros), paisagens invernosas, uma forma de diálogo, um modo de se alimentarem acentuadamente frugal, e quase sempre as mesmas personagens (um homem mais velho, escritor, e alguns amantes de contornos esquivos), um conjunto obsessivo de referências literárias e cinematográficas (às vezes alargadas às artes plásticas), formas de vestuário (camisolas de lã, “jeans”). Há o risco de uma certa monotonia, mas cria-se o contorno dos reencontros, como quem todos os anos pelas férias regressa à mesma praia e aos pequenos bares que a rodeiam e às casas de madeira sobre a areia.

Desta vez, o ambiente é totalmente inglês. Temos um casal de actores, sendo ela Kate e ele Clive. O texto designa-os como “os amantes de Kensington Gardens”. Depois surge a memória de um escritor que Kate conheceu numa livraria, quando ele fazia uma conferência sobre Henry James. E Kate conta como ele a tinha convidado para tomar um copo. E depois tinham ido para “a casa de Portobello Road”. Ana Teresa Pereira gosta de enunciar nomes de lugares, que deixam de ser uma topografia neutra, para ganharem uma espécie de sensualidade (memória, ternura, desejo). Clive pergunta: “Fizeste amor com ele?” E Kate responde com indiferença: “Sim.” “Ele sorriu sem vontade. Foi bom?’ -Acho que sim. Foi há muito tempo.” Kate recorda: “A casa verde de Portobello. Entre a casa branca e a casa cor de telha. O jardim nas traseiras coberto de neve. Os braços do homem à volta da sua cintura. A voz funda, com o sotaque de Oxford, a voz de um actor que faz o público ter vontade de ajoelhar. O desejo.” Aqui introduz-se um novo elemento que imprime as marcas de uma atmosfera: as cores nítidas, concisas, o branco, o verde. A casa verde pode ser estritamente referencial: mas abre uma espécie de fantasia que a imaginação vem ocupar.

Há um arco que atravessa as personagens: elas estão entre o princípio do mundo e o fim do mundo. Tom (nome obsessivo no universo de Ana Teresa Pereira, que dedica a Tom o seu romance) diz a dada altura, ao reaparecer anos depois: “há qualquer coisa na tua beleza que me comove. E assim, com a neve no cabelo, pareces um anjo do princípio do mundo.” A noite Kate vai ouvir um concerto numa igreja. Tocam A Criação de Haydn: “O princípio do mundo. Um anjo do princípio do mundo.”

Aqui entram em cena os amos. Estas personagens inclinam-se entre serem gente que caminha sobre a terra, corpos aconchegados, na recusa de serem deuses, e anjos que abrem a multiplicidade dos céus que cabem na alma de unia pessoa. “Eu encontrei na Rússia os anjos que desdobraram os céus no princípio dos tempos.” E este princípio dos tempos tem a ver com certos livros com naturalmente os de Ana Teresa Pereira. “Em todos os livros há duas pessoas que estão ligadas... mas como já se conhecessem há muito tempo (...) “Desde o princípio do mundo’? Algo assim. E eles encontram-se... - Suponho que em todos os livros... eles se encontram de novo.” É isso que redime a repetição: o que se repete é sempre a primeira vez e é como primeira vez irrepetível que se repete.

Há uma intromissão de “Andrei Roubliev” ou da obra de Tarkovski, um misticismo ardente, uma religiosidade terrestre (que se combina com uma sexualidade displicente e e vagabunda). “Mais tarde ele dissera-lhe que os seus menores movimentos tinham um sentido religioso. Como se fosse um anjo. Um anjo do princípio do mundo, que atravessara os milénios intocado e sem memória. Era por isso que o mundo se transformava num lugar solitário onde quer que ela estivesse: a vaguear na margem do rio, sentada nos degraus da igreja de St. Martin-in-the-Fields, adormecida na relva de um parque, reclinada no balcão de um pub a beber cerveja.” As personagens têm um estatuto insólito: ela vive a navegação brumosa da identidade: “Não sabia quem era quando não estava a representar. Katie, que se transformava em tantas mulheres, Miranda, Stela, Hilde, Cecily, por vezes tinha medo de não ser ninguém. De ter escolhido aquela profissão para fugir ao vazio, à falta de identidade. Talvez com um escritor acontecesse o mesmo. Viver através das suas personagens para fugir ao vazio, ao horror de estar sozinho e não ser realmente ninguém.” Clive é uma paixão leve, um pássaro esvoaçante, um desejo “light”. Tom tem a espessura frontal e enigmática de um ícone: “Um ícone é uma janela para o reino de Deus.” Mas uma palavra inglesa diz que Kate é uma “becomer” (é logo no limiar do livro que esta expressão aparece, e vai reaparecendo ao longo do texto): “Ela era uma ‘becomer’ e transformava-se na personagem que estava a representar. Se Clive a achava parecida com um anjo era porque a amava. Palavras que um homem diz à mulher que ama. O princípio de um livro de William Irish. Um daqueles livros de que eles não se separavam nunca. Não eram muitos. Os poemas de W. B. Yeats e de Rilke, as peças de Shakespeare e de Ibsen, algumas de Tennessee Williams, os romances de Wílliam Irish, os livros de contos de William Irish, as aventuras de William.”

Um dia Marguerite Duras disse que tinha conhecido uma criança que perguntava à mãe o que era o calor. E a mãe respondeu: “É quando a gente estende a mão e se queima.” E a criança voltou a perguntar: “E o que é o calor quando não há ninguém?” Duras acrescentava que os seus livros eram escritos do mesmo modo: “E o que é o amor quando não há ninguém?”

Tom disse a Katie: “Gosto de te ver com a neve nos cabelos.” E dialogam os dois: “- Talvez houvesse neve no princípio do mundo. - Sim. Longas paisagens de gelo.— Como nos teus sonhos? — E nesse mundo feito de gelo ainda não havia homens.” É este o lugar de Katie. É este o olhar dos homens que a amam: “Com um estremecimento ele percebeu que não havia mais nada, só a neve, o gelo, e depois mais neve, e mais gelo, estavam no princípio do mundo, num tempo sem deuses e sem homens. O lugar mais solitário do mundo.”

 

 

EXPRESSO, Actual, n.º 1790, 17 de Fevereiro de 2007

 

Branco

deserto

imenso

 

Ana Teresa Pereira em registo cru, desolado e incontornável

 

Manuel de Freitas

 

A neve

Ana Teresa Pereira

Relógio d’Água

2006, 112 pags. € 11

 

Este livro quase nos obriga a um começo impróprio, desaconselhável segundo todas as regras hermenêuticas, mas nem por isso menos imperioso: de facto não é irrelevante o conhecimento do “lugar” a que A Neve é dedicado. «Para a Quinta do Palheiro Ferreiro, onde nasceram tantas histórias» (pág. 7), está longe de ser quer um capricho isolado quer um apontamento turístico, numa ilha concreta e situável, onde a barbárie do betão, sob camuflado fascismo, tem conhecido extremos de que só o pior Algarve é capaz. Essa quinta, simultaneamente real e fantasmática possui ainda hoje os ingredientes fundamentais dos melhores pesadelos de Henry James e esteve na origem de muitos dos «fairy tales» com que já nos surpreendeu Ana Teresa Pereira. Dir-me-ão, com plena justiça, que “o silêncio pesado da capela» (pág. 13) poderá ter como referente muitos outros lugares, ou que não é preciso ter-se estado em Davos para perceber o torpor de Hans Castorp ou em Quaunahuac para sentir o desespero de Geoffrey Firmin. Certamente que não. Mas, sintomaticamente, Ana Teresa Pereira acrescenta: «posso continuar a escrever a vida toda sem sair deste jardim» (pág. 13).

Talvez seja assim há muito tempo; ou o tempo tenha mesmo perdido toda a sua importância face á desmemória da infância e ao absoluto poder que nela então se pressente: «Aos onze ou doze anos acreditava que era capaz de fazer nevar (pág. 18). Rose e Rose indistinguem-se, mulher e criança que se encontram furtivamente nas páginas deste livro branco que (para imitar a neve?) se faz de acumulados fragmentos, murmúrios breves. Aí, porém, nos podemos deparar com súbitas iluminações que trazem a esta escrita um modo inesperado de autodecifração: «Havia sempre um homem e um livro, pelo menos um homem e um livro, um homem que algum tempo antes desejara com todas as suas forças e que agora não passava de um estranho, um livro que desejara com todas as suas forças e que morria lentamente debaixo dos seus dedos» (pág..16). Tão improvável como a neve em Agosto ou nesse Agosto quase perpétuo que recai sobre a Quinta do Palheiro Ferreiro é a confissão diferida que a certa altura nos tolhe: “Nunca sentira que existisse unia separação definida entre o que escrevia e ela própria, era doloroso, quase insuportável, e era assim que devia ser, de outra forma não valia a pena» (pág. 83).

Não desesperem, porém, os que mais «diegeticamente» têm acompanhado o invulgar percurso de Ana Teresa Pereira. Existe neste livro uma surda e violenta história de amor, ou de quase impronunciado sexo, algures muna estalagem que se chamou Jamaica Inn (tributo a Daphne du Maurier ou ao filme “maldito» de Hitchcock que nesse texto se inspirou). E também não faltam, com a mesma pose nenhuma de sempre, as referências a Robert Browning, Turner, Paganini, Ted Hughes, John Dickson Carr. São, entre tantos outros, os anjos e demónios que esta escrita há muito reclama como seus. Mas nunca, parece-me, o fez de um modo tão despojado, que apeteceria até colocar sob a égide de Rothko (outra figura tutelar deste universo fechado), a quem talvez não desagradasse a extrema austeridade de uma capela onde tudo, de novo, se funde: «os livros são como os amantes, o último é sempre o primeiro. Ele é o meu primeiro amor, este é o meu primeiro livro» (p 97). E é isso, como a neve em Agosto, que se toma paradoxalmente verdadeiro a cada novo livro de Ana Teresa Pereira: a diferença entre Rose e Rose num mesmo jardim.

 

EXPRESSO, Actual n.º 1810, de 7 de Julho de 2007

  

A criação de um mundo

 

O deserto da paixão segundo Ana Teresa Pereira

 

Manuel de Freitas

 

Quando atravessares o rio

Ana Teresa Pereira

Relógio d’Água, 2007, 112 págs.

 

A poder falar-se dum efeito “eternidade”, tão preciso e intenso como a luz que de um ícone escuramente emana, teríamos de o detectar na obra de Ana Teresa Pereira. À margem, claro, de fáceis misticismos ou de reconhecíveis engrenagens religiosas, pois não é disso que se trata, mas antes de um cada vez mais asfixiante e depurado continuum. A autora, acrescente-se, sabe-o bem melhor do que nós: “As suas personagens eram sempre as mesmas: uma mulher um pouco parecida com ela e um homem mais velho chamado Tom” (pág. 48). Desta vez, Tom quase chega a ter um rosto, talvez o de Jeremy Irons, assumido agora como o “actor nos seus livros”. Mas pouco importa, afinal, a substância de que são feitos Tom ou Katie Dylan, cujos duplos teimam em assombrar estas páginas inquietantes. Abate-se sobre Quando atravessares o rio uma espécie de beleza terminal, inexorável. Este poderia muito bem ser o último – ou o primeiro – livro de Ana Teresa Pereira, ao confrontar-nos com questões  tão irresolúveis quanto raramente formuladas:

“O que acontece às personagens quando o autor vai embora?

“Os livros de um escritor estão contados. E depois ele fica sozinho com os seus demónios. Ela mesma escrevera essas palavras, alguns anos atrás” (pág. 20).

Dir-se-ia que a “autobiografia” irrompe, neste livro, ainda menos veladamente do que em obras anteriores: “[Katie] queria ser uma grande escritora, não queria fazer mais nada na vida” (pág. 25). Já sabemos que isso – em Portugal – é o menos realizável dos projectos, a não ser que se tenha agentes literários e uma evidente pobreza de espírito, dócil e exportável. No entanto, é esse o quase impossível desígnio de Katie: “esculpir no gelo”, afastar-se solitariamente do esplendor frívolo do cimento dominante. A suspeita de uma crise ou de um impasse revela-se, porém, indissociável de uma extrema e desapiedada lucidez: “Deitar-se na neve para morrer. Como ele. // Mas a neve era muito pouca” (pág. 24).

Uma escrita deste calibre, com tudo o que tem de obsessivo e de inalienável, obriga-nos a ficar “algures do outro lado das palavras” (pág. 55). Como se, de falésia em falésia, só o susto e a derrota – no que estes possam ter de júbilo ou celebração – fizessem ainda algum sentido, à sombra de um nome indomavelmente próprio: “Fingir dá muito trabalho. Eu prefiro ser (pág. 67).

 

13-07-2007

Às vezes basta um rosto, in Ípsilon, 13-7-2007, p. 44, recensão de Eduardo Pitta, de "Quando atravessares o rio".

Pode ser lida, aqui

 

EXPRESSO, Actual n.º 1861, de 28 de Junho de 2008

 

ANA TERESA PEREIRA.

O Fim de Lizzie

Biblioteca Editores Independentes,

Maio de 2008,

138 págs.

 

NESTE VOLUME, que assinala a estreia de Ana Teresa na mais elegante colecção portuguesa de livros de bolso, deparamos com dois textos que já haviam sido publicados. «Numa Manhã Fria», entretanto reescrito, constituía o texto inicial de Histórias Policiais (2006), ao passo que «O Fim de Lizzie» foi originalmente divulgado neste suplemento do Expresso», numa versão bem mais concisa. A pertinência de reunir estas duas novelas num único volume é inquestionável. Além de as personagens principais serem nominalmente as mesmas (um quarteto implacavelmente estigmatizado pela questão do «duplo»), repetem-se também os cenários: Wistaria Hall e as charnecas circundantes, o nevoeiro de Londres, uma noite escura que «pode durar o resto da vida». Mas seria decerto redutor atermo-nos à constatação destas afinidades, pois a elas se vem sobrepor outro tipo de inquietações, como seja a inexorável despedida da infância, essa época em que «o mundo ainda não nos parecia um lugar incompreensível». Não será por acaso que em ambos os textos surgem «nursery rhymes», emblemas esparsos do «conhecimento e sinistro que têm as crianças quando estão a cantar». Pode mesmo dizer-se que nunca essa nostalgia amarga se fez notar tão intensamente na obra de A. T. Pereira. Como se esse limiar, embora já trouxesse em si «qualquer coisa de errado, qualquer coisa de partido», constituísse, afinal, o único abrigo possível para a noite interminável que se adivinha - nos corpos, nos livros, nas casas onde não voltaremos a ser crianças. À fugaz realidade da infância sucede, em suma, uma permanente ameaça de desencontro e de irrealidade, um recorrente desejo de matar o que talvez nem exista. Lizzie, apesar da sensualidade com que é descrita, é a imagem exacta dessa imaterialidade e do negrume em que surge envolta: «Talvez àquela hora da noite todas as mulheres se parecessem com Lizzie.» Acontece, porém, que outra parecença se nos vai tornando evidente, desta vez a da própria autora com frases deste teor: «Eu quis usar a minha arte como se fosse magia, e os deuses não me perdoaram»; «as personagens tinham vida própria, e pareciam muito próximas da loucura». O que não oferece dúvidas é que a magia persiste, mesmo quando observada do «ponto de vista das gaivotas» ou de outros demónios igualmente atentos.

Manuel de Freitas